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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Janelas indiscretas


  Alfred Hitchcock, Janela Indiscreta
 
Em Greenwich Villace, o fotógrafo profissional L.B. Jeffries (Jeff), de perna partida, está confinado no seu apartamento.

Já foi dito que o voyeurismo da Jeff é uma analogia com o espectador de cinema. De facto, num certo sentido todos os filmes implicam o voyeurismo do espectador. Mas a condição de espectador é a essência da sua relação com aquelas personagens, logo não tem para com elas deveres morais.

Não sei se Hitchcock está a sugerir que Jeff faz algo de errado. No entanto, também Jeff não é por natureza um voyeur, como os vizinhos não são exibicionistas. O voyeurismo de Jeff é acidental, vários fatores o determinam: está imobilizado com uma perna partida e, devido a uma sufocante vaga de calor, as janelas dos vizinhos estão abertas.

Parado, observa. Jeff não participa na ação, pelo menos diretamente, embora quando Lisa introduz o recado por debaixo da porta de Thorwald ou quando o próprio Jeff recorre a telefonemas enganadores para atrair o vizinho para fora do seu apartamento, torna-se participante ativo, na medida em que acaba por afetar a situação.

Mas, digamos que a sua condição é essencialmente a de espectador, de alguém que olha, que assiste a alguns acontecimentos que o fazem suspeitar que um vizinho matou a mulher e escondeu o corpo. As suspeitas confirmam-se.

Aquela descoberta só é possível porque o olhar de Jeff é lento e silencioso, tem todo o tempo para olhar as "janelas" à sua volta  e, além disso, não pode intervir na ação. É um olhar demorado e de fora. É precisamente este o olhar que descobre e compreende.

Dificilmente esta história poderia acontecer hoje: pelo ruído e inquietação constantes e porque um Jeff contemporâneo de perna partida estaria a ver televisão.

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