Falar para um candeeiro...

domingo, 20 de dezembro de 2015

Tudo cheirava e tudo sabia a Natal

Heidi Malott, Manhã de Natal

Lembro-me do Natal no Bocoio em que ninguém comprava o pinheiro nem os doces de Natal. E mesmo os presentes, que naturalmente seriam comprados, apenas representavam uma forma de celebrar a infância.

Todos os anos, uma enorme árvore de Natal era cortada de um dos pinheiros que existiam ali para os lados do Sr. Campinos. Muito maior do que eu, a árvore, depositada dentro de um grande vaso, era colocada num canto da sala de jantar, onde acabava decorada com enfeites natalícios, que ficavam guardados de uns anos para os outros numas caixas próprias. Depois de instalada a árvore, não tardava muito a que toda a sala, a que toda a casa, a que todos aqueles dias ficassem a cheirar e a saber a Natal.

Até os flocos de algodão distribuídos sobre o verde da árvore, que simulavam a neve de um norte longínquo e totalmente desconhecido, e onde certamente fazia muito frio, eram elementos que compunham aquela festa.
Era um Natal não apenas num “sul metafórico” mas num sul real, que não corresponde apenas a um sul geográfico, mas que caracterizava uma parcela da humanidade do “outro lado do mundo”. Ainda hoje, basta olhar para os postais para se desconfiar que no “verdadeiro” Natal devem existir trenós e muita neve.

Ainda que me escapasse por completo a visão que separa o sagrado e profano e me fosse completamente alheia a ligação com o mundo religioso, tinha ideia de que havia algo de profundamente sagrado naquelas festas de Natal. Embora vagamente, sabia que se tratava do “nascimento do menino Jesus”, que o presépio reatualizava e vinha relembrar, e que, por isso, se devia celebrar a infância, que os presentes apenas vinham consagrar. No Natal, recebia presentes porque era criança. E, pensava eu, todas as crianças do mundo, numa espécie de lei natural da causalidade, também receberiam os seus presentes.

De facto, o Natal era uma verdadeira festa no sentido mais profundo de reconciliação do ser humano com o todo, uma espécie de intimidade com o divino, fosse ele o menino Jesus ou outra entidade qualquer. Porque recebia presentes ou porque excecionalmente jantava na sala com toda a família, sentia que na festa de Natal a experiência humana era suscetível de ser transfigurada e vivida num outro plano. Sabia que a festa de Natal surgia como uma “interrupção”, como uma suspensão temporária das atividades diárias, daquilo que se fazia todos os dias no quotidiano.

Agora a memória daqueles Natais, onde não havia pai natal mas menino jesus, onde não havia inverno mas verão, constituem esta espécie de imaginário “primordial” em que os meus olhos de criança viam o Natal, insubmissos às forças que atualmente o organizam de uma forma demasiado consumista.

Hoje esta é quase uma “epistemologia do sul”, uma poética de memórias do Natal contrárias ao que determinam as forças hegemónicas, submersas na profunda realidade de um imenso mercado.

Seriam apenas os meus olhos de criança?







domingo, 25 de outubro de 2015

"Império" e poder biopolítico

Michael Hardt e Antonio Negri: Empire, Multitude e Commonwealth


Em Império (2001), Michael Hardt e Antonio Negri apresentam uma teoria sobre a nova ordem mundial contemporânea. A essa nova forma de supremacia dão precisamente o nome de “Império”. Segundo os autores, o Império é a substância política que, de facto, regula as trocas globais e governa o mundo globalizado, é a face jurídico-política da globalização económica.

O conceito de “Império” caracteriza-se, primeiramente, pela ausência de fronteiras; “o poder exercido pelo Império não tem limites. Antes e acima de tudo, portanto, o conceito de Império postula um regime que efetivamente abrange a totalidade do espaço, ou que de facto governa todo o mundo “civilizado”. Nenhuma fronteira territorial confina o seu reinado.” (Hardt e Negri, 2001, p. 14)
Consideram os autores que a transição para o Império surgiu “do crepúsculo da soberania moderna (pois), em contraste com o imperialismo, o Império não estabelece um centro territorial de poder, nem se baseia em fronteiras fixas. É um aparelho de descentralização e desterritorialização do geral que incorpora gradualmente o mundo inteiro dentro das suas fronteiras abertas e em expansão.” (Hardt e Negri, 2001, p. 12)

Em segundo lugar, o Império não se apresenta como conquista histórica, e sim como uma ordem que suspende a História. “Do ponto de vista do Império, é assim que as coisas serão hoje e sempre – e assim sempre deveriam ter sido” (Hardt e Negri, 2001, p. 14). Além de estar fora do espaço, o Império situa-se também fora de qualquer dimensão temporal, “exaure o tempo histórico, suspende a História, e convoca o passado e o futuro para dentro da sua ordem ética. Por outras palavras, o Império, apresenta a sua ordem como algo permanente, eterno e necessário.” (Hardt e Negri, 2001, p. 29).

O terceiro aspeto dessa nova ordem mundial relaciona-se com o facto de apesar das suas práticas provocarem muita violência, “o conceito de Império é sempre dedicado à paz – uma paz perpétua e universal fora da História.” (Hardt e Negri, 2001, p. 15)
Por colocar-se fora do tempo, o Império apresenta-se como promotor da paz perpétua à luz da antiga Pax Romana. O Império é formado não com base na força, mas com base na capacidade de mostrar a força como algo ao serviço do direito e da paz, “a intervenção moral tornou-se a linha de frente da intervenção imperial.” (Hardt e Negri, 2001, p. 55)
E assim instaura um poder policial para intervir em qualquer região ao serviço da paz. “Dois elementos distintivos combinam-se neste conceito da luta justa: primeiro, a legitimidade do aparelho militar desde que eticamente fundamentado, e segundo, a eficácia da ação militar na conquista da ordem e da paz desejadas.” (Hardt e Negri, 2001, p. 30)

Por último, o Império atinge toda a vida social, desce às profundezas do mundo social. “Não só administra o território com a sua população, mas também cria o próprio mundo em que ela habita, regula as interações e rege a própria natureza humana. Tendo como objeto de governo a totalidade da vida social, o Império apresenta-se como uma forma paradigmática de biopoder” (Hardt e Negri, 2001, p. 15) num mundo globalizado.
O biopoder configura uma forma de poder que regula a vida social por dentro, acompanhando-a, interpretando-a, absorvendo-a e rearticulando-a. “Na sociedade disciplinar, portanto, a relação entre o poder e o indivíduo permaneceu estável: a invasão disciplinar de poder correspondeu à resistência do indivíduo. Em contraste com isso, quando o poder se torna inteiramente biopolítico, todo o corpo social é abarcado pela máquina do poder e desenvolvido nas suas virtualidades. Essa relação é aberta, qualitativa e expressiva. (Hardt e Negri, 2001, p. 43)

O conceito de Império fornece o nível de generalização adequado para se compreender o problema da dívida em toda a sua real extensão. “Temos de aceitar o desafio e aprender a pensar e a agir globalmente” (Hardt e Negri, 2001, p. 227), quanto mais não seja porque a dívida, ela própria, também está em toda a parte, é cada vez mais uma relação universal que se apodera de toda a sociedade, que invadiu as formas de vida e que se alarga a todas as suas etapas.

Como o Império, a dívida não tem fronteiras. Estamos no terreno biopolítico. A dimensão do problema ocupou a vida, dá-se em todo o tempo e em todos os lugares.

Hard Michael e Negri, Antonio (2001). Império. Rio de Janeiro, São Paulo: Editora Record (3ª edição)





quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A agenda moral da corrupção

Cartier Bresson

De forma recorrente, continuo a ouvir o discurso anticorrupção…
Vejo a corrupção surgir na agenda moral das forças do Bem contra o Mal, Darth Vader contra Luke Skywalker. Como se o conflito político fosse uma cruzada de um exército de indignados contra os corruptos e os desonestos.

O problema do capitalismo seria, então, de resolução fácil. Bastava livramo-nos das pessoas más e gananciosas e premiar os justos e os especialistas talentosos, como na mais pura utopia (neo)liberal da meritocracia. E a punição acabaria por reequilibrar o sistema e prevenir relapsos. Como se estivéssemos num regime político essencialmente bom, no qual algumas pessoas, individualmente consideradas, teriam sido contaminadas pelas forças do Mal.

Mas, a corrupção não é um problema pessoal, nem é de natureza acidental. É a própria forma em que tem funcionado a política representativa, quando a democracia se torna meramente formal.
As causas não são externas e o poder não está noutro sítio. A corrupção é produzida e reproduzida dentro das próprias regras existentes, mediante uma relação de forças (de classes, de género, de raça) profundamente desigual.
A dívida, a pobreza, a acumulação de poder e de dinheiro, estão aí. A dívida, por exemplo, já se fazia anunciar nos Tratados de Maastricht e de Lisboa, aparece no seu esplendor no Tratado Orçamental e é viabilizada pelo Orçamento de Estado. Tudo legal. Tudo democrático.

O problema da corrupção não se resolve com os votos de uma democracia esvaziada pela axiomática do capital, muito menos com votos de pureza porque a sua causa não reside num problema individual e a luta não é a de uma purificação moral.





sexta-feira, 25 de setembro de 2015

"Morte aos Traidores!": da coragem e da estupidez



Os banqueiros já disseram as maiores alarvidades, como no PREC também se disseram. Foram ditas porque era possível dizê-las. Não é o caso da frase "Morte aos Traidores!". Esta frase está fora do ‘regime do discurso’, fora daquilo que é possível dizer, mesmo que a Comissão Nacional de Eleições venha dizer que a frase não constituiu qualquer tipo de crime, entendendo tratar-se de uma "metáfora".

Cada sociedade tem o seu regime de verdade, a sua “política geral” de verdade”. Esse ‘regime’ é constituído por aquilo que é possível “ver” (‘regime de visibilidade’) e aquilo que é possível “dizer” (‘regime de dizibilidade’ ou 'regime do discurso'). A ‘verdade’ de cada regime não é propriamente o conjunto dos enunciados verdadeiros, mas é sobretudo o conjunto das regras segundo as quais se distingue o verdadeiro e o falso, no sentido daquilo que se pode e não se pode dizer. 
Assim, o 'regime de verdade' é constituído por esses discursos que funcionam como verdadeiros, mas também pelas técnicas para a obtenção dessa verdade e pela definição de um estatuto próprio daqueles que produzem e definem a verdade.

Considero o enunciado "Morte aos traidores!" particularmente infeliz, mas não estou a tecer qualquer consideração normativa sobre esse enunciado. Isto é, não estou a dizer se ele devia ou não ser dito. Estou a dizer que, simplesmente, não pode ser dito, pois o conjunto de regras que determinam aquilo que em cada momento podemos dizer não o permite (e por essa razão a frase foi retirada pelo MRPP). (aqui)

E dizer o que não se pode é um ato de enorme coragem. E a coragem é uma virtude rara. Que pena ser desperdiçada numa frase tão infeliz, que fala de "morte", de "traidores" e até dos bafientos "patriotas". 






sábado, 19 de setembro de 2015

Agências de “rating”: a realidade será o que disserem que ela é

Ernest Normand, Pygmalion and Galatea (1886)

As taxas de juro refletem a perceção de risco dos investidores do mercado e as agências de classificação de risco de crédito (agências de rating) expressam opiniões relativas à qualidade de crédito, que determinará essa taxa de juro. E para expressar opiniões é preciso avaliar.

Um título financeiro é um direito sobre rendimentos futuros e para o avaliar é necessário prever o que será o futuro. Assim, o preço de um ativo financeiro resulta de uma avaliação, que representa uma crença sobre o que determinados operadores pensam que será o futuro. Ora, pelo facto de expressarem essa "crença, as coisas podem vir a ser o que esses operadores, sentados algures numa sala do "mercado", disseram que elas seriam.

Por exemplo, numa situação de ataque especulativo, os níveis de juros podem começar a ser considerados incomportáveis e a desconfiança sobre a capacidade de pagamento instala-se, gerando um “efeito de Pigmalião”, tornando-se uma profecia auto-realizada. O Estado, deixa, de facto, de consegui pagar perante a exigência de  juros cada vez mais altos. 

Foi precisamente isso que aconteceu em Portugal em abril de 2011, pois foi a subida nos juros da dívida pública nos mercados secundários a razão invocada pelo governo para a necessidade de financiamento da tróica.

Em vésperas de eleições, a Standard & Poor's diz o que as coisas podem vir a ser (aqui). 
É esse o infinito poder das agências de rating, o de dizer como a realidade será.




quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O “mundo não binário” de Judith Butler



“Alice pegou no leque e nas luvas e, como estava muito calor abanou-se enquanto dizia:
- Meu Deus, meu Deus! Como tudo hoje é estranho! Ontem, tudo parecia normal. Será que sofri alguma transformação durante a noite? Deixa-me ver… Será que era a mesma quando me levantei de manhã? Acho que já me sentia um pouco diferente. Mas, se não sou a mesma, quem diabo sou? Ah, aí é que está o grande problema…”
Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas
  

A luta do sujeito é um pouco como esta estranha luta de Alice: a de desvendar o grande mistério que envolve o modo como cada um de nós é produzido, o modo como se constituem formas de ver, de sentir e de estar no mundo?

A subjetividade, desde Platão à Modernidade, tem sido vista como sendo constituída por “essências” ou “linhas duras” (“molares”), que organizam as grandes divisões binárias: homens versus mulheres, brancos versus negros, heterossexuais versus homossexuais, crianças versus adultos, europeus versus africanos, etc.

Mas essas divisões apresentam todas o mesmo problema: supõem precisamente aquilo que é preciso explicar. E o que é preciso explicar é por que razão se dá como adquirido que milhões de homens, de mulheres, de heterossexuais, de homossexuais, etc., sejam todos iguais entre si e sejam todos diferentes em relação aos outros.

As linhas duras são modos hegemónicos de ser, com base em formações binarizadas muito endurecidas ou sobrecodificadas. E por isso funcionam como dispositivos de captura e controlo da subjetividade.


O que é verdadeiramente extraordinário no pensamento de Judith Butler, que a coloca numa  “galáxia” muito seleta é precisamente a capacidade de pensar um “mundo não binário” (aqui).




quarta-feira, 16 de setembro de 2015

“Chegou o frio, acabou a seca dos figos…”: eram assim as cartas da minha avó


(...)

Na minha rua existia um marco de correio que foi retirado há uns três ou quatro anos. Por vezes desperta-me uma certa melancolia quando calha deparar-me com aquele espaço vazio. Ainda hoje acontece lembrar-me do velho marco de correio. Era daqueles vermelhos, lindíssimos.
Mas a verdade é que já quase ninguém escreve cartas. Eu também não. Hoje estamos permanentemente em comunicação online, a clicar e a postar como quem respira, sem tempo de espera e sem silêncios, num estado físico e mental onde só existe o presente, sempre prolongado.
Nas cartas havia uma suspensão do tempo, de um tempo que não podia ser imediatamente ocupado senão “na volta do correio”. Havia uma espera e um silêncio. E mesmo as palavras, pareciam-me serem outras. Falavam de uma forma quase palpável da banalidade  quotidiana.

Remexendo em papéis, chegaram-me às mãos cartas da minha avó, que costumava escrever para mim e para a minha irmã. As “Minhas queridas”, a quem se dirigia, éramos nós as duas. Hoje, estas cartas já não são aquelas que lia em tempos, quando havia ainda muitos marcos de correio espalhados por aí. São uma outra coisa.

A sua letra vem / A tremer-lhe nos dedos:

“Eu vou indo como Deus quer…”
“Chegou o frio, acabou a seca dos figos…”
“Agora faço os preparativos para a viagem, sinto-me com pouca coragem…”

No tempo em que lia estas palavras, estava muito longe de ali sentir a “tal pureza e o tal brilho” de que falava Miguel Torga no seu poema "Correio". Um poema lindíssimo, mesmo a condizer com os velhos marcos de correio. Hoje, sim, estas cartas já me dizem outras coisas. Revelam agora claramente a sua essência, mostram-me a sua natureza sagrada.


Correio
Carta de minha Mãe.
Quando já nenhum Proust sabe mais enredos,
A sua letra vem
A tremer-lhe nos dedos.
- «Filho» …
E o que a seguir se lê
É de uma tal pureza e de um tal brilho,
Que até da minha escuridão se vê.

Miguel Torga, 1941






Lehman Brothers: a queda de uma “maçã”



Há notícias que vale a pena guardar como aquela onde pode ler-se que a “trajetória do ajustamento, indissociável da trajetória da dívida”, está “para além das decisões dos políticos”, pois "a sustentabilidade sobre a dívida pública e a dívida externa significa que não há opções políticas para discutir". Foi o Governador do Banco de Portugal que disse (aqui).

“Não há opções políticas para discutir”!

O discurso do Governador cria um espaço apolítico, colocando a dívida numa ordem neutra e desinteressada, exatamente como a Natureza a seguir o seu inexorável caminho.

O Governador também já nos tinha dito que essa mesma Natureza é assim como uma espécie de uma grande “sapataria na Rua Augusta”, que “não calça todos os descalços que lhe passam à frente da porta, só aqueles que podem pagar”. Queria ele dizer que um banco “também só dá crédito a quem tem possibilidade de reembolsar”. (Aqui: “O mundo, essa grande sapataria”)


Para o Governador do BdP, as decisões sobre a dívida (e outras) não são, portanto, baseadas em escolhas políticas. Na verdade não são sequer escolhas, mas forças que agem deterministicamente sobre a realidade. A dívida é uma catástrofe natural.

Deve ter sido a mesma força determinista, a mesma lei da gravidade que causou, precisamente há sete anos, a queda de uma “maçã”  chamada Lehman Brothers

Olha se caísse na cabeça do Newton!






segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Um tal Sankara

Thomas Sankara

Em 1987 na tribuna da 25ª Cimeira da Organização da Unidade Africana, Thomas Sankara, presidente do Burkina Faso, um pobre e minúsculo país africano, profere o mais vibrante e o mais corajoso discurso sobre a dívida.

O acontecimento sankariano inscreve a dívida numa outra zona de forças, causando um deslocamento de sentido da própria dívida. As suas palavras provocam um efeito de tensão. Naquele discurso (não me estou a pronunciar sobre a sua atuação geral como político), ele foi um enunciador da verdade, que confrontou o poder. Manifestou a sua palavra com risco, porque ele era muito menos poderoso do que aqueles a quem dirigiu a sua fala, o ele que dizia vinha “de baixo” e dirigia-se a alguém que está “em cima”.

Três meses depois Sankara seria assassinado.

Como um “parésico”, Thomas Sankara não é um profeta, não é um sábio, nem é um técnico. Não fala em nome de Deus, da sabedoria ou da técnica. Diz em nome de um ethos, da sua relação com a verdade. A parrésia é um tipo de atividade discursiva na qual aquele que enuncia tem uma relação específica com a verdade.

Ninguém exige esta coragem, muito menos este risco aos candidatos que agora vão entrar em campanha. Da maior parte deles já nem se espera aliás que digam a verdade. Sem expectativas, vou ouvir o que dizem sobre a dívida...


Nota: "Parrésia" etimologicamente significa “dizer tudo” (“pan”, todo) e “discurso” (“rhésis”) e quer dizer “franqueza”, “coragem de dizer a verdade”, “falar livremente”.
O tema da parrésia (parrhēsía, palavra original: παρρησία) aparece pela primeira vez nas Suplicantes (Eurípides, ca. 480 a.C. - 406 a.C.), sendo um tema presente em vários autores do mundo grego. 

Mais sobre a parrésia aqui: "O dizer verdadeiro: Casy ainda mora aqui?"






terça-feira, 8 de setembro de 2015

"Afinal, o que é que você quer?"

Max Scheler, Bruxelas, 1958


Com a nossa imaginação política presa à Modernidade Liberal (assente nas noções de indivíduo,  razão,  ciência, técnica…), é muito difícil fugirmos do consenso que tem dominado todo o pensamento e toda a linguagem.

Clarice Lispector dizia que “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” Mas como dizer o que ainda não tem nome? Se o tentarmos dizer, ficamos na situação algo histérica de produzirmos um discurso de insatisfação exatamente na mesma linguagem que produz o consenso. É o que acontece, por exemplo, quando tentamos compreender a dívida, que fala apenas a linguagem do credor.

Por isso, como diz Žižek (aqui), é preciso “não nos deixarmos distrair pela pergunta “Mas o que vocês querem?”. Porque essa é a pergunta da autoridade masculina a interrogar a mulher histérica: “Você só reclama! Tem alguma ideia do que realmente quer?”  Mas a pergunta do “chefe” (“o que é que você quer?”) esconde o sub-texto: “Diga-me numa língua que eu entenda ou cale-se!” .


Pois é! Mas a (única) língua que ele entende é a dele. E é por isso "aquilo que eu desejo não tem nome".





sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Joana Amaral Dias, a que “não se vende” e “Cristina”, a rainha do negócio


Como levar a sério o slogan “Eu não me vendo” dito por alguém que surge na capa da Revista “Cristina”, cuja diretora, rainha da TVI, se transformou ela própria num negócio altamente lucrativo (aqui) que vende tudo e mais alguma coisa?

Como levar a sério alguém que, tendo a possibilidade de acesso à imprensa, usa essa prerrogativa na promoção da espetacularização vazia da política? É a própria Cristina, a dona da revista, que apresenta Joana Amaral Dias na qualidade de “ex-deputada e líder do movimento Agir – pelo qual se candidata às eleições legislativas, no dia 4 de Outubro” (aqui).  É, portanto, na qualidade de estar ligado à política que alguém posa para esta fotografia.

Como levar a sério alguém que considera que ser notícia e ter visibilidade e fama são critérios para os eleitores decidirem o seu voto? Sabemos que em muitos casos, são estes mesmo os critérios de alguns eleitores. A questão aqui é quando é o próprio candidato a deputado que leva em consideração esses critérios.

Como levar a sério este assentimento ao culto da beleza quando essa caraterística pessoal é, supostamente, irrelevante no debate político? De resto, esta mentalidade é a mesma que estupidamente chama “velha” ou “feia” a figuras como Manuela Ferreira Leite.

Como levar a sério alguém que ao despir-se para chamar a atenção, capitaliza o famigerado (e machista) “estado de graça” feminino da gravidez, que nenhum homem se atreverá a questionar? Muitas mulheres, algumas até que não suportam o machismo, adoram aquele “avé Maria cheia de graça” de quem se sente o ventre do mundo.

Por último, a fotografia podia, enfim, primar pelo bom gosto. Mas nem isso! Já que a beleza é assim tão importante, podiam usar o photoshop também retocar as mãos da JAD que parece ter 70 anos; já ele está demasiado besuntado de óleo e, como não foi submetido ao mesmo nu integral que normalmente submetem as mulheres, como neste mesmo caso, alguém se esqueceu de lhe avisar que deveria ter tirado a carteira no bolso das calças. Lá se vai o artístico.

Para que fique claro, o problema aqui obviamente não é a nudez, que o falso moralismo tanto gosta de criticar. Era bom que o problema fosse esse, mas não é. A nudez em si  não é mais do que a simples e natural condição em que todos viemos ao mundo.
E muito menos se trata aqui de um problema de liberdade individual. A Joana Amaral Dias tem todo o direito de aparecer nua onde quiser. Como não me atinge o “atentado ao pudor”, por mim podia até aparecer no estado em que veio ao mundo no Castelo de S. Jorge. A Cristina Ferreira também pode editar as revistas que quiser, porque eu não serei obrigada a lê-las e o senhor da fotografia até pode aparecer de carteira enfiada no bolso, que o problema também não é de natureza estética.

Para além de todas as questões já referidas, o problema, ou melhor aquilo que começo a não conseguir entender, é o facto da líder de uma coligação ameaçar fazer da sua gravidez o facto político relevante da temporada, facto que, calculo, não será de fácil conciliação com o programa político dos outros partidos que integram a coligação, especialmente no caso de um partido revolucionário.

Depois da pompa de uma conferência de imprensa para anunciar as limitações de saúde devido à gravidez e depois de posar nua para a revista “Cristina” exibindo essa mesma gravidez, quais serão os próximos episódios? Uma cegonha aterrar em São Bento no dia 4 de outubro em direto para o programa do Goucha na TVI?








segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A Europa e os “migrantes”: “Da Crueldade e da Piedade”


Baseada na ideia de sofrimento do outro, tem-se assistido no ocidente contemporâneo a um alargamento teórico e prático acerca do Outro. Frente a um insistente cenário de controlo, de dominação e de exclusão, temos assistido a muitas discussões pós-colonialistas de condenação do racismo, muitos debates sobre questões étnicas, lutas pela desestigmatização dos deficientes, movimentos queer, discriminação positiva de género ou mesmo iniciativas pela defesa dos animais.
Parece quererem-se reconfigurar os velhos impasses através dos muitos estudos, debates teóricos, lutas ou ações concretas de organizações públicas, privadas ou da sociedade civil, como se o “Outro já não fosse feito para ser exterminado, odiado, rejeitado, seduzido mas para ser compreendido, libertado, mimado, reconhecido.” (Baudrillard, “A transparência do mal”)
Passados mais de dois séculos das Revoluções que fundaram a era moderna, procuram-se enfim novos contornos para antigos problemas.

Mas todos sabemos que não é bem assim.

Por um lado, as políticas da “piedade”, ditas inclusivas, não transformam as condições de vida daqueles a quem dirigem a sua ação (meramente) reparadora; Por outro, as sociedades modernas, desde a sua fundação até aos dias de hoje, desenvolvem um processo intenso de individualização, pelo que a “simples” política ou uma certa ideia de justiça não são instâncias capazes de reverter a desigualdade e transformar a condição social do outro, sem a implicação de cada um de nós.

Por isso, na sequência daquela frase, Baudrillard conclui: “Lá onde havia o Outro, adveio o Mesmo”.

Também Maquiavel dedicou o capítulo XVII da sua obra “O Príncipe” “à Crueldade e à Piedade”. Diz ele: “Todo o príncipe deve desejar ser considerado piedoso e não cruel; entretanto devo adverti-lo para não usar mal esta piedade (…) Um príncipe não se deve preocupar com a fama de ser cruel se desejar manter os seus súbditos unidos e obedientes”, alertando ainda para o facto da “excessiva piedade deixar evoluir as desordens”. (O Príncipe, XVII)

É também neste capítulo, que encontramos umas das mais célebres passagens de Maquiavel, segundo o qual, ao Príncipe é desejável fazer-se amado e temido. Mas, como é difícil combinar as duas coisas, muitas vezes é preciso optar entre um ou outro. Nesta caso, “é mais seguro ser temido do que amado, quando se tem de desistir de uma das duas”, isto porque “os homens têm menos receio de ofender a quem se faz amar do que a outro que se faça temer” (Príncipe, XVII). É que o vínculo do reconhecimento que mantém o amor é rompido todas as vezes em que há interesse, ao passo que o temor é mantido pelo medo do castigo, que sempre está presente.


A Europa aprendeu a lição de Maquiavel. 




sexta-feira, 31 de julho de 2015

Muros no mundo




São barreiras físicas que podem ser muros, cercas, faixas militarizadas de fronteira, zonas minadas do tipo no man’s land, e campos de recolhimento ou confinamento para migrantes e refugiados. Por todo o mundo existem barreiras físicas como dispositivos de política migratória e não só.

Barreiras de ordem económica: Fronteira sul dos EUA / México, Botswana / Zimbabué, Índia / Bangladesh, Emirados Árabes Unidos / Oman…

Barreiras de ordem política, securitária ou étnica: Coreia do Norte / Coreia do Sul, Índia / Paquistão (Caxemira), Uzbequistão / Tajiquistão e Quirquistão, Arábia Saudita / Iémen, Marrocos / Saara Ocidental ou Fortificações (Chipre (Turquia / Grécia), Kuwait / Iraque, EUA / Cuba (Guantanamo…

Barreiras de ordem política e económica: Espanha / Ceuta e Melila (enclaves localizados em Marrocos), Israel / Cisjordânia…

São uma espécie “jaula que fecha um grande jardim proibido, um jardim cujo dono é um vizinho que não devolve a bola quando ela cai do seu lado. Um vizinho inalcançável que isola as suas oportunidades e o seu povo."

Muitos muros no mundo... (documento)


sexta-feira, 24 de julho de 2015

Dar outro sentido

Escultura com materiais reciclados : Paulo Graça e Ptolemy Elrington


A nossa vida é feita de objetos. De centenas, de milhares de objetos. Houve tempos em que os objetos à nossa volta eram bem menos numerosos e possivelmente poderia contar-se a história de uma pessoa através dos seus objetos: onde nasceu e cresceu ou a que família, religião ou cultura pertencia.
 
Com a aceleração da produção capitalista essas particularidades dos objetos esvaziaram-se e transformam-se em pura mercadoria, um acessório para satisfazer o desejo (infinito) de consumo. Os objetos são rapidamente descartados, trocados, esquecidos e poucos são aqueles que continuamos a estimar numa rede de memórias afetivas que nos ligam a eles e que guardamos numa espécie de "baú" secreto.
 
Mas os objetos também podem ser ressignificados. Ressignificar é dar um novo sentido ao objeto, alterar o seu conceito, perceção ou interpretação original. A possibilidade de ressignificar objetos será, por certo, uma experiência estética bastante interessante, uma vez que, a partir de uma mudança ou de uma conversão do olhar, o artista produz uma recomposição da matéria, que, às suas mãos, ganha um novo sentido.
 
Significa que a arte e a capacidade de questionar ou de reinterpretar o mundo já dado, procurando nele novos significados, existem em muitos lugares, alguns dos quais muitas vezes nem nos apercebemos. Esses lugares de criação, estética ou outras, possibilitam transpor barreiras, como as que  nos impõem os próprios objetos "fechados" na sua materialidade e imediatez .
 
 
Mas a ressignificação confere ainda a abertura dos objetos a uma outra possibilidade ontológica na medida em que lhes permite sair do seu puro estado de mercadoria. Numa sociedade em que tudo é mercadoria, a produção artística consegue o efeito extraordinário de reverter a mercadorização imparável.
 
 
Pudéssemos nós dar outro sentido à mercadoria. Como a estética, pudesse a política des-mercadorizar.