Falar para um candeeiro...

terça-feira, 8 de abril de 2014

Uma memória de infância acerca do meu pai…

O meu pai, a minha irmã e a minha filha, há uns anos nos Açores

Hoje é dia de aniversário, meu e da minha irmã, mas também faz exatamente hoje um ano que o meu pai faleceu. Associar acontecimentos tão diferentes a uma mesma data provoca uma certa estranheza.
 
Talvez por isso especialmente hoje recordo o meu pai, recorrendo ao lugar de todas as lembranças que são as memórias de infância.
De entre as muitas, há uma que registo.

 
Desde sempre me lembro de um pequeno hábito que o meu pai tinha, que de resto penso tratar-se de um comportamento relativamente comum e frequente: o de falar sozinho. Naqueles momentos em que, provavelmente, estaria entregue aos seus pensamentos, o meu pai tinha o costume de os ir manifestando através daquelas pequenas conversas que tinha consigo mesmo, numa oralidade audível a quem estivesse ali pelas redondezas.
Como era, e continua a ser, prática comum à generalidade dos homens, o meu pai, todas as manhãs, cumpria a preceito um mesmo ritual, o de “fazer a barba”. Tratando-se de uma tarefa individual, esta operação, em contexto doméstico, é, em regra, realizada isoladamente. Ora estando alguém sozinho, entregue a uma operação rotineira, e calculo que aborrecida, que ainda demora largos minutos, e que coloca o indivíduo num confronto direto consigo mesmo frente a um espelho, é natural que a sua mente vá divagando para fora, senão mesmo para longe, daquelas “quatro paredes”.
 
Devia ser o que acontecia com o meu pai, pois enquanto cumpria este ritual estava quase sempre a falar sozinho. Acontecia, por vezes, pôr-me a ouvir aquela algaravia, meia conversa, meio pensamento. Mas, claro, aquela conversa não fazia sentido nenhum para mim, porque, muito provavelmente, as coisas de que o meu pai falava eram “lá coisas dos adultos” às quais eu não atribuía grande significado, mas principalmente porque quando se fala sozinho omitem-se frases e ideias, isto é, algumas frases são ditas mas outras ficam por dizer, detêm-se apenas dentro do pensamento. Para quem ouve, e não tem acesso aos tais pensamentos por dizer, ficam sempre elementos de fora e o discurso, incompleto, surge confuso.
E assim acabava sempre por desistir de ouvir aquela estranha conversa que não adiantava nada, pois nunca consegui descobrir nenhum segredo importante (nem sem ser importante) por essa via. Mas antes de me ir embora, fazia questão de passar pelo meu pai para o “surpreender”. Dizia-lhe, então, com alguma satisfação pelo facto de eu o ter “apanhado” a falar sozinho:
- O pai está a falar sozinho…!
E o meu pai respondia-me sempre, sempre, o mesmo:
- Não. Está a falar com a Sarita.
 
Era exatamente com estas palavras, referindo-se a si próprio na terceira pessoa e tratando-me, como sempre me tratava, por “Sarita”, que ele se “desculpava” sempre.
Portanto, o meu pai nunca falava sozinho, pois quando confrontado com esse facto respondia-me sempre que falava comigo. Claro que usava a mesma desculpa com os meus irmãos.
 
A verdade é que esta resposta, que ora me irritava, ora me divertia, fazia parte da natureza do meu pai. Ele tinha um sentido de humor entre o brincalhão e o trocista, às vezes até uma ironia cortante, de “homem beirão”, como vim a perceber mais tarde, no contacto que fui tendo com as pessoas da sua terra natal, Vila Meã.
Com todas as suas virtudes, e com todos os seus defeitos, sempre apreciei nele aquela combinação de humor e de ironia, algo parecido com aquilo que só a genialidade de um Eça de Queirós é alguma vez capaz de pôr em palavras e em histórias que permanecem intemporais para todos nós.
 
Não herdei esta sua caraterística. No entanto, recebi outras que sempre orientarão a minha vida, como também orientaram a dele, e as quais sempre lhe agradecerei como uma herança de muito valor: o sentido ético da responsabilidade e do compromisso, assim como o valor do trabalho, de onde retiramos, mais do que aquilo que nos sustenta, uma forma de ser.
Saudades. Tanto a dizer…
“Sarita”


Excertos de um postal de Natal do “pai amigo, António”, enviado de Luanda em dezembro de 1976, danificado pelas andanças do tempo. O tempo gosta de danificar postais para que eles possam ficar sempre novinhos na nossa memória.
 
 
 

 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

O mestre da liberdade


 
Espinosa, um verdadeiro príncipe no reino da filosofia, distinguiu no seu Tratado Político entre "potentia" e "potestas", a potência, poder para, poder de e o poder sobre (o outro). Investir no segundo despoja-nos do primeiro. Apesar das aparências nos dizerem o contrário, todos os tiranos (nos quais se incluem os “mercados”) são impotentes e escravos que perderão a sua vida para defender o poder que inevitavelmente lhe escapará.
 
Espinosa é o filósofo da liberdade, que nos alivia do peso esmagador da tirania e da servidão do imaginário da transcendência, do imaginário do medo e do terror (medo de Deus, medo dos homens, medo do desejo, medo dos governantes, medo da mudança), que nos faz compreender os afetos em vez de maldizê-los, que nos convida à alegria do pensamento e a descobrir que a liberdade é a potência do corpo e da mente.
 
Na sua obra, Espinosa procurou descobrir a servidão humana, em todas as suas formas, ilusoriamente imaginadas como liberdade. De tal maneira que a pergunta que colocou resume todo o programa da filosofia política: “Por que razão os homens perseguem a servidão como se procurassem a liberdade?” (Espinosa, via Deleuze e Guattari, em O Anti-Édipo, Capitalismo e esquizofrenia).  
 
Na  construção da sua resposta procurou caminhos pelos quais a verdadeira liberdade pudesse tornar-se desejada e acessível a todos os seres humanos. Localizou na sua época os lugares onde se alojavam as causas da servidão: superstição religiosa, tirania teológica, despotismo político e ignorância. As causas dessa servidão encontrou-as em nós mesmos enquanto seres passionais. Indagou, então, o que poderia ser feito para governar as paixões de maneira a desfazer a superstição religiosa, quebrar a tirania teológica, derrubar o despotismo político e alcançar o saber verdadeiro, oferecendo a sua própria filosofia como expressão desse caminho libertador.
 
 
A 30 de julho de 1881, um outro filósofo, Nietzsche, escreveu ao seu amigo Franz Overbeck um bilhete-postal dando conta das suas leituras sobre Espinosa e de quanto isso o inspirou.
 
Por essa altura, Aurora acabara de sair e Nietzsche, instalado em Sils-Maria, está prestes a dar início ao Zaratustra. Entre outras solicitações, pede a Overbeck dois volumes da biblioteca de Basileia, um deles é o volume sobre Espinosa de Kuno Fischer, um professor de filosofia de Heidelberg que escreveu a História da Filosofia Moderna. Overbeck atendeu ao pedido e Nietzsche lançou-se à leitura.
 
No postal que dirigiu ao seu amigo, que lhe fizera a gentileza de obter o livro, Nietzsche fará uma confissão comovida do efeito que aquele encontro, para lá das “diferenças enormes”, lhe provocou. Deixa salientar a alegria incontida do encontro, da passagem “da solidão para a dualidade”, como a alegria de um soldado que, sozinho e entrincheirado, encontra um companheiro de luta.
No postal que escreve em Sils-Maria ao seu amigo, diz-lhe Nietzsche: “estou inteiramente espantado, inteiramente encantado! Tenho um percursor e que percursor! Eu não conhecia quase nada de Espinosa (mas agora vejo que) a sua tendência geral é idêntica à minha: “O conhecimento é o mais potente dos afetos”. (Friedrich Nietzsche, A Franz Overbeck em Basileia (cartão-postal), Sils-Maria, 30 de julho de 1881”)

 
Foi assim que o filósofo alemão resumiu o poder que o ato de conhecer tem sobre a vida de um indivíduo. No século XVII, Espinosa tinha enunciado uma afirmação semelhante.

 
Galileu, outro verdadeiro príncipe no reino da ciência, resumiu, de certa forma, toda a força da "potentia" criadora quando afirmou, em condições pessoais particularmente duras e complicadas: “contudo, ela move-se”.
E o que a faz mover é também o conhecimento, “o mais potente dos afetos” porque através dele o ser humano é capaz de descobrir forças e poderes para além dos seus, acabar com formas de servidão e modificar a (sua) realidade.
 
O poder também se diz de potentia e não somente de potestas.

 

Referência Bibliográfica

Nietzsche, Friedrich, “Friedrich Nietzsche, A Franz Overbeck em Basileia (cartão-postal), Sils-Maria, 30 de julho de 1881”, p. 190, in Santiago, Homero (2011). Entre Servidão e Liberdade. São Paulo: Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humana
 
 
 

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Ainda Miró: poupar dinheiro aos contribuintes?

Como aceitar o argumento do governo do “poupar dinheiro dos contribuintes” para pagar uma dívida (impagável) face ao que já foi dado aos bancos e face à importância artística de semelhante património para o país?
 
Com a venda dos quadros do Miró, o governo tenciona poupar 150 milhões de euros aos contribuintes.
Ora, a nacionalização do (prejuízo do) BPN já custou aos contribuintes portugueses 6 mil milhões de euros.

E na Europa, desde 2008 até 2012, só em apoios “implícitos” (fora as ajudas diretas), os bancos já custaram aos contribuintes europeus 1,3 biliões de euros, que representa 10,3% do PIB europeu (ou seja 10,3% da riqueza produzida pelos europeus foi para salvar bancos!!).


Ver Relatório "Subsídios implícitos no setor bancário da União Europeia" em:


 

Blues para Miró: quando Duke Ellington e Miró se encontram

Só para dizer (e ouvir) que num certo dia a lenda do jazz tocou para Miró: Duke Ellington ao piano e Miró à escultura. Mágico.
 


 

Como se víssemos tudo pela primeira vez (Miró)


Joan Miró, La Masía
 
 
A infância é um sentimento em que todas as coisas regressam à luz originária.
 
Teixeira de Pascoaes, Livro de Memórias, 1928
 

Miró desde o início dos seus trabalhos encontra-se imerso na procura de um conceito de pintura ligado ao originário. Não se trata de procurar a origem no mundo idealizado, como o mundo helénico, mas nas suas verdadeiras raízes originárias, o “regresso a uma luz originária”, reinventar uma represntação do mundo com linhas muito simples.


O seu pai tinha uma pequena propriedade rural em Montroig, na Catalunha, onde Miró, (que nasceu em Barcelona), passou largas temporadas desde 1911. Nesse local o pintor recuperou de um momento depressivo e de um quadro de febre tifoide aos 18 anos. “Montroig é a força que me alimenta, o choque primitivo a que sempre regresso”.

 
Críticos e historiadores da arte contemporânea apontam o quadro La Masía (1920-1921), ainda no período figurativo, como estando na origem das formas ditas mironianas, e o próprio Miró considerava ser La Masía (A Quinta) a fundação e a chave para todo o seu trabalho.
 

Na pintura, onde a calma e imobilidade reinam, o tempo parece suspenso, na eterna leis da vida no campo, se não fosse a primeira página do Jornal de Paris – L’Intransigeant – pintado no quadro como um corpo estranho, junto a um regador, criando um par dissociativo de objetos.

 
O quadro desenvolve-se a partir do eixo do eucalipto, a árvore que centra toda a representação. À esquerda vemos a fachada da casa. Da porta de entrada podemos ver a parte posterior de um asno. Do lado oposto, à direita, centrado sob os ramos da árvore, está representado o galinheiro, emoldurado por um retângulo de cor vermelha.

A parede do galinheiro foi retirada para que visualizássemos o seu interior.

A árvore nasce de um grande círculo negro, círculo estaria relacionado com as forças renovadoras que vêm da terra. De cada lado do círculo aparecem outros dois círculos: o sol, simbolizado na roda do carro, pintado de vermelho, e a lua, à direita do quadro.

Em relação à iconografia gótica catalã, temos no espaço enquadrado pintado de vermelho, e dentro do espaço desse galinheiro, os motivos que se relacionam com a crucificação e paixão de Cristo, representando a dolorosa despedida das coisas do mundo visível, e o nascimento para outro espaço de significados, uma nova visão da pintura.

As “armas de Cristo” estão aqui representadas: a escada, o galo, o cordão amarrado e a coluna. As demais armas são indicadas: os ramos eriçados de espinhos fazendo referência à coroa de espinhos, o comedouro alude às moedas de ouro e a enxada ou instrumento agrícola representando a lança. Dentro dessa iconografia temos também os animais, onde a cabra e o coelho representariam o princípio de renovação cíclica da vida.

Na frente do galinheiro a vida brota em cada pequeno elemento, como o caracol e o lagarto que vão desempenhar um papel crucial no desenvolvimento das formas mironianas.

 No caminho que vai das lajes até ao tanque, vemos a camponesa nas primeiras luzes do dia. Ao lado temos uma estranha figura nua, agachada sobre a terra que sugere um homúnculo, homúnculo que aparece no Fausto de Goethe, e simbolizaria o caminho da transmutação espiritual para a culminação da obra. Atrás, a roda d’água gira e gira para extrair a água das profundezas. As sete marcas pintadas no começo do caminho são, junto com o arbusto, o cachorro e a letra alfa que forma uma pequena mesa de madeira, a entrada alegórica que indica esse novo começo da arte mironiana.



Para a próxima que nos sentirmos tentados a dizer “até o meu filho fazia isto”, quando virmos o traço "infantil" de Miró...
 

Referências

Balsach, Maria Josep (2007). Joan Miró. Cosmogonias de um mundo originário (1918-1939). Barcelona: Galáxia Gutenberg; Circulo de Lectores.

Nishikawa, Eunice, Miró e o originário: uma inscrição na análise de uma criança. São Paulo. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/jp/v43n78/v43n78a10.pdf


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

"É fazer as contas"

Dívida sobe no mínimo 6000 milhões com reclassificação de empresas do Estado. Mais aqui.

Enquanto isso a "Despesa anual de mais de 850 milhões com pensões vai desaparecer do défice". Mais aqui.


O “novo Sistema Europeu de Contas ("o conjunto de regras que definem como é que cada país deve calcular indicadores como o PIB, o défice público ou a dívida pública") vai conduzir à inclusão de mais entidades no perímetro” da dívida. A dívida "aumenta".
 
Mas, por outro lado, "desaparecem" despesas, "uma ajuda preciosa ao Governo na tentativa de atingir o objectivo de défice de 4% em 2014".

Pois…, os números são objetivos mas o resultado depende da pessoa que faz (ou manda fazer) a conta.
 
Torturem os números que eles confessam”!



terça-feira, 21 de janeiro de 2014

L’air du temps


OPERAÇÃO FURAÇÃO
No final dos anos 90, era “chique, era bem, era inteligente, era sofisticado, era distintivo, era de classe social superior” fugir ao fisco. Não através da corriqueira evasão fiscal, mas sim pelo “planeamento ou elisão fiscal”, que nada tinha a ver com a evasão. Nesse tempo, até os “fiscalistas”, os especialistas, “sorriam com um esgar de complacente superioridade quando os neófitos perguntavam se X conduta não constituía um comportamento criminoso”. Continuar a ler aqui

Estas palavras (a “linha de argumentação que o advogado Tiago Vaz Mascarenhas, acusado de 16 crimes de fraude fiscal qualificada no primeiro caso da “Operação Furacão”, apresentou a sua defesa no Tribunal Central de Instrução Criminal”) são absolutamente extraordinárias! Mas talvez mais extraordinário seja o facto delas corresponderem a uma certa verdade. “À data dos factos imputados na acusação (1999-2003) o crime de fraude fiscal era desvalorizado, socialmente e até grandes bancos ofereciam serviços de “planeamento fiscal” agressivo entendido”.

 
Ninguém levava a mal, portanto. Podia fazer-se, com a mesma naturalidade com que os banqueiros hoje dizem “Aí aguenta, aguenta”. É o ar do tempo, um ar fétido que se respira…

Vivia-se o rescaldo dos tempos do ícone Pedro Caldeira, o corretor da bolsa de valores portuguesa que dominava mais de 50% do mercado (pelo menos tina a reputação de ter sido responsável por 60% das operações que tinham lugar na bolsa portuguesa) e que no verão de 1992 foi detido nos EUA por alegados crimes de burla e abuso de confiança, sendo posteriormente absolvido de todas essas acusações (apenas um dos seus clientes manteve a acusação, todos os outros afirmaram que apesar do dinheiro que perderam, Pedro Caldeira deu-lhes a ganhar muito mais); Ou dos tempos de Mario Conde, o banqueiro que ficou famoso pelo «caso Banesto» que abalou a vida política e financeira espanhola no princípio dos anos noventa, e que foi condenado a uma pena de 20 anos de prisão por apropriação indevida, falsificação e burla.

Eram os tempos dos Young Urban Professional, YUP” ou "Yuppies”, jovens profissionais entre os 20 e os 40 anos de idade, em situação financeira entre a classe média e alta, que tinham formação universitária, e que seguiam as últimas tendências da moda: Sucederam à geração anterior, os hippies.

Continuam por aí.
 
 
 

domingo, 19 de janeiro de 2014

O euro, a surrealizar por aí

Revoltados com preços altos no Rio, internautas criam moeda $urreal, com imagem de Salvador Dalí


Nós já temos uma moeda surreal: chama-se “euro” e na outra encarnação chamava-se “marco” e era alemão.

Com a entrada de Portugal no euro, o país perdeu, pela primeira vez desde a sua fundação em 1143, a capacidade de criar moeda. Não dispomos de política monetária própria, não controlamos a quantidade de moeda em circulação, a taxa de juro, nem a taxa de câmbio. A soberania monetária foi transferida para uma nova instituição da União Europeia, o Banco Central Europeu, governada por tecnocratas, vindos de grandes instituições financeiras privadas, que, naturalmente, defendem os seus interesses.

Claro que isto não se aplica apenas a Portugal mas aos 18 países que compõem hoje a Zona Euro. O problema é que estes países caracterizam-se por uma enorme heterogeneidade. Os países do “centro”, geográfico e económico, como a Alemanha, (ainda) a França e a Holanda não têm os mesmos problemas nem os mesmos interesses estratégicos que os países da “periferia”, como Portugal ou a Grécia.
 

Portugal entrou no euro com uma moeda demasiado forte. Uma supermoeda surreal para uma microeconomia e as exportações tornaram-se ainda mais caras e difíceis (para quem não exporta “Mercedes” mas pares de sapatos) e as importações cada vez mais agradáveis. Tudo isto acentuou o domínio exportador alemão. Em nome de um mercado único, os países do “centro” da Europa inundaram as economias dos outros estados membros de dinheiro em troca da destruição do tecido produtivo desses países. Mais do que membros de pleno direito de uma união monetária, os países menos industrializados foram vistos como novos mercados. Nessa altura Portugal como mercado consumidor poderia representar, e representou, uma fonte de lucros e expansão para os capitais do norte. E para transformar países como Portugal em consumidores deram-lhes uma moeda estável, com credibilidade e juros baixos (a adesão ao euro significou uma enorme descida na taxa de juros).
 

Como competir com os países do “centro” que têm a mesma moeda, mas não têm, como nós, uma estrutura produtiva (a que ainda resta) muito baseada em setores tecnologicamente atrasados - mão-de-obra pouco qualificada, baixo padrão de especialização produtiva, logo exportações muito dependentes do preço?

A nossa falta de competitividade externa traduziu-se em desequilíbrios crescentes na balança de pagamentos, que foram iludidos pelo fácil endividamento (afinal pertencíamos à Europa e na carteira tínhamos euros).

 
Mas, quando o resultado nos rebentou nas mãos (défices sucessivos, preocupação dos “investidores”, subida do risco e, logo, dos juros, queda do investimento, estagnação económica e aumento do desemprego), quando nos revelámos tão vulneráveis ao abalo financeiro internacional, explicaram-nos que andámos a viver acima das nossas possibilidades, que não produzimos o suficiente para manter um Estado Social demasiado caro.
 

Não deixa de ser irónico que países como a Alemanha critique Portugal ou a Grécia, , pelo seu ‘despesismo’, quando o facto destes países ‘viverem acima das suas possibilidades’ lhe possibilitou gerar um excedente comercial que permite que o seu governo tenha défices orçamentais mais baixos (“Alemanha foi o único país da UE sem défice em 2012”. Onde pode ler-se também que “O défice mais elevado em percentagem do PIB registou-se em Espanha (10,6%), seguindo-se o de outros quatro países em dificuldades e sob intervenção externa: Grécia (com um défice de 10%), Irlanda (7,6%), Portugal (6,4%) e Chipre (6,3%).” Ler mais aqui. E Alemanha prevê défice nulo em 2015 e excedente nos anos seguintes”, Ler mais aqui.)

Grande Alemanha, sim senhor, o seu excedente na balança é o défice do vizinho. Por isso é que a zona euro como um todo tem uma balança corrente aproximadamente equilibrada com o resto do mundo. A zona euro é um jogo de soma nula.
 

Este é, portanto, o estado a que a nossa moeda surreal, com uma arquitetura que acentua as assimetrias e as desigualdades, nos ajudou a chegar e à qual estamos amarrados.

Até quando esta moeda surreal nas nossas carteiras e na nossa vida?
 
 

sábado, 21 de dezembro de 2013

A sul do Natal

Sempre me lembro de ver postais de Natal com imagens que mostravam a lareira acesa numa sala toda decorada com motivos de Natal e onde pela janela se via a neve a cair lá fora, ou postais onde se viam os bonecos de neve, geralmente com um chapéu ou gorro na cabeça e cachecol enrolado ao pescoço, para além do inevitável nariz feito com uma cenoura, ou aqueles postais que simplesmente mostravam o Pai Natal bem agasalhado com o seu habitual fato vermelho e as suas botas pretas.

Os postais de Natal podiam ser diferentes, mas todos eles ilustravam a mesma ideia: no natal está frio.  E todo aquele cenário da  lareira numa sala quentinha  ou a neve lá fora a cair, compunham lindos postais e mostravam como o verdadeiro Natal deveria ser.

Mas no Bocoio, onde nasci, não havia nada daquilo! Quem é que podia levar a sério um natal cheio de calor? Mesmo os pedaços de algodão branco espalhados pela árvore de Natal a imitar os flocos de neve não podiam produzir aquele efeito. Um pinheiro com pedaços de algodão podia ter um valor simbólico mas não apagava o incontornável  facto do Natal em Angola ser mais propício a ser passado no calor da praia do que no calor da lareira.
Perante esta evidência, a minha dúvida de criança era saber se alguém simplesmente se lembrou de inventar aquele cenário de frio apenas para conceber uma estética natalícia que produzia lindos postais de Natal , ou se, afinal, o menino Jesus não tinha mesmo nascido em Angola.  Esta era a hipótese mais terrível, era como se o Natal fosse uma mentira.

Consoante o meu estado de espirito, acreditava numa ou noutra destas hipóteses, mas sempre soube que havia ali alguma coisa de “errado”. Se alguma vez cheguei  a perguntar, não ficou registado  na minha memória qualquer explicação para este facto. Suponho que, mesmo que tivesse existido alguma explicação, não seria muito esclarecedora, mas seria apenas mais uma teoria vinda do complicado mundo dos “adultos”.

Mas, depois lá vinha a noite da véspera de Natal e a minha atenção era inteiramente desviada para o mais importante: os presentes! Depois disso, o próprio Natal acabava sempre por terminar e eu só  voltaria a pensar nestas questões importantantes no ano seguinte, por  altura dos postais, que eram o primeiro sinal a anunciar a chegada do Natal.

Por fim, num certo Natal, todas as minhas  dúvidas se dissiparam. No primeiro inverno que passei em Portugal percebi logo que devia ser aqui que se faziam os postais de Natal. Eu própria, de gorro e cachecol, quase parecia um boneco de neve. Mais tarde percebi ainda que a verdadeira-verdadeira terra dos postais de Natal afinal ficava lá mais acima, nos países do Norte.

Talvez um dia ainda vá até à Lapónia e envie de lá um postal de Natal às crianças do Bocoio, garantindo-lhe que, apesar do ar nórdico dos postais, o Natal na sua terra  é tão certo como em qualquer outro sítio do mundo. E se não festejarem o Natal continuam a estar certos. 

Aos povos do Norte, um Natal quentinho e cheio de luz e aos povos do Sul um Natal fresquinho mas cheio de sol. Talvez  um pouco mais de Sul no Norte e um pouco mais de Norte no Sul. O mundo é GLOBAL e é só um.


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

"Ajustamento ou penalização salarial"? Não. É mesmo roubo.

Walker Evans

(...)
Olhando para o índice dos custos salariais publicado pelo Instituto Nacional de Estatística, verifica-se um recuo entre o terceiro trimestre de 2008 e o mesmo período de 2013. Num estudo recente, o Banco de Portugal também dava conta de um ajustamento dos salários que foi feito, sobretudo à custa da "rotação de trabalhadores". As empresas em que houve entradas e saídas de trabalhadores ofereceram, em média, um salário 110 euros mais baixo (ou 11%) aos novos funcionários. O banco referia, na altura. que o aumento da duração do desemprego reflecte-se também numa "penalização salarial no retorno ao emprego".
(...) Jornal Público, Artigo completo aqui

A Troika serviu para baixar:
a) o défice
b)  a dívida
c) o desemprego
d) os salários.

Ainda alguma dúvida?
Mesmo os "mais honrados" que sempre acharam que tinham que pagar esta dívida impagável, afinal não a pagaram. A única coisa que lhes aconteceu foi o mesmo que a todos os outros que trabalham: roubaram-lhes parte do seu salário. "Roubo" é mesmo a designação técnica para "ajustamento dos salários" ou "penalização salarial".
 
 

domingo, 8 de dezembro de 2013

Pôr o chocolate no frigorífico... para derreter melhor

"... estava o peixinho, veio o gato e comeu-o…”
 
Derreteu-se o chocolate   LUÍS AGUIAR-CONRARIA
A ideia é esta: há uma fila infinita de crianças com um chocolate na mão. Cada criança dá um chocolate à que estiver à sua frente na fila. Exceto a primeira criança, que recebeu um chocolate mas não deu nenhum e a última que deu mas não recebeu.

As “crianças” são os contribuintes, o “chocolate” é a contribuição para a Segurança social, a “fila” são as várias gerações de contribuintes, a “primeira criança” são os trabalhadores que se reformaram antes do sistema ter sido criado (nunca descontaram, isto é, ainda não tinham o chocolate) e a “última criança” são as atuais gerações que não têm o chocolate.

O argumento é o seguinte: para a solvabilidade do sistema é necessário crescimento demográfico e económico e atualmente não temos nem uma coisa nem outra, logo as atuais gerações mais novas ficam fora do contrato social, ou melhor numa situação de “egoísmo” social (contribuem mas o chocolate já foi derretido).

Nesta história, o autor não explica aquilo que, como sociedade, deveríamos fazer com a primeira criança, mas palpita-me que ficava mesmo sem o chocolate (a ausência de solidariedade social até nos permitiria ser infinitamente bondosos e caritativos e vir à televisão falar sobre o banco alimentar e a inestimável colaboração do pingo doce). Quanto à última criança, diz o autor que faz um “péssimo negócio, mais valia guardar o chocolate no frigorífico. Essa alternativa corresponderia a um sistema de segurança social de capitalização, que não é o nosso”.

Capitalização, mais do género contas individuais, um frigorífico cheio de PPR, estilo fundos de pensões. Ou seja devemos todos contribuir para reforçar o grande capital financeiro, o mesmo que produz(iu) enormes crises com impacto negativo no tal crescimento económico e (que declinou, pois) e… nas tais contribuições para a Segurança Social (que derreteram, pois). E ficarmos cada vez mais nas mãos do sistema financeiro, de “investidores”, que "derretem" especulativamente as dívidas públicas, como a nossa.

Convém não esquecer que, contrariamente ao anunciado “regresso aos mercados”, o único sítio onde eternamente regressaremos é ao “clube da bancarrota” (“a probabilidade de incumprimento da dívida portuguesa subiu – desalojando a posição de El Salvador; o custo dos credit default swaps (derivados financeiros que funcionam como seguros contra o risco de default) a cinco anos subiu; a trajetória das yields da dívida portuguesa no mercado secundário foi de subida no caso das obrigações do Tesouro (OT) nos prazos a cinco e a dez anos”…. Ver aqui mais sobre o nosso brilhante regresso, depois de tantos cortes.

Lembrem-se disto quando, todas as noites tivermos que gramar com o rol de comentadores, sem contraditório, no “debate” político televisivo ou quando nos vêm dizer que o “chocolate derreteu”.

O chocolate não derreteu. Alguém se meteu na fila e comeu-o! Lembram-se daquela publicidade de natal dos chocolates Regina “… estava o peixinho, veio o gato e comeu-o…”, pois foi.

Agora, ainda nos dizem para guardarmos os poucos chocolates que restam no tal “frigorífico” de capitalização para "não derreterem".
Assim, nem o “coelhinho” consegue ir com “o Pai Natal e o(s) palhaço(s) no comboio ao circo.

sábado, 7 de dezembro de 2013

"A lei é igual para todos”, já fiquei mais descansada.


Desde quando o facto de alguém dizer algo, pelos vistos extraordinário, como “a lei é igual para todos” constitui uma notícia do jornal  “Público”, ou sequer uma notícia de jornal, ou sequer uma notícia?
Será que se eu disser “este teclado onde escrevo este post está sujeito à lei da gravidade”, algum jornal vai publicar? 

Ou será que afinal a frase “a lei é igual para todos” é, de facto, extraordinária porque alguém acha que o patriarca de Lisboa podia achar que a lei não é igual para todos? Assim, sim, já seria notícia. E todos ficaríamos rendidos ao enorme sentido jornalístico do Público e ao enorme sentido cívico do patriarca que, extraordinariamente, acha que “a lei é igual para todos”. 

E assim se distribui o espaço público do acesso à palavra.



domingo, 1 de dezembro de 2013

Defenestração: há por aí muita janela e muito candidato

Dia 1 de dezembro, quarenta conjurados e um povo inteiro, libertou-se do jugo (espanhol, na altura) e readquiriu a sua independência. Passaram 373 anos e hoje este dia já não é feriado.

Não estando bem certa de ainda podermos comemorar a “independência” de Portugal (e não necessariamente por não ser feriado), parece-me, em todo o caso, oportuno tecer umas loas à defenestração. Há por aí muita janela e muito candidato. A defenestração pode ser simbólica, vá.
 
As loas, no humor de Luís Fernando Veríssimo:

 
Mas, nenhuma palavra me fascinava tanto quanto "defenestração".
 
A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca me lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar deveria ser um acto exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um certo tom lúbrico. Galanteadores de calçada deveriam sussurrar ao ouvido de mulheres:
- Defenestras?
 A resposta seria uma bofetada na cara. Mas, algumas… Ah, algumas defenestravam.
Também podia ser algo contra pragas e insectos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria, assim, defenestradores profissionais.
Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerram os documentos formais? “Nesses termos, pede defenestração...” Era uma palavra cheia de implicações. Devo até tê-la usado uma ou outra vez, como em:
-Aquele é um defenestrado.
Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada era a palavra exacta.
Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. “Defenestração” vem do francês “Defenestration”. Substantivo feminino. Acto de atirar alguém ou algo pela janela.
Ato de atirar alguém ou algo pela janela!
Acabou a minha ignorância, mas não minha fascinação. Um acto como esse só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o acto de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada a baixo. Por que então, defenestração?
(…)
-Com prédios de três, quatro andares, ainda era possível. Até divertido. Mas, daí para cima é crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: “Interdito defenestrar”. Os transgressores serão multados. Os reincidentes serão presos.
Na Bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestradores. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez ainda persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes.
- É essa estranha vontade de atirar alguém ou algo pela janela, doutor…
- Humm, O Impulsus defenestrex de que nos fala Freud. Algo a ver com a mãe. Nada com o que se preocupar – diz o analista, afastando-se da janela.
Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitectura moderna, com as suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reacção inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada.
Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e balbucia:
- Fui defenestrado…
Alguém comenta:
- Coitado. E depois ainda o atiraram pela janela.
Agora mesmo deu-me uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar esta crónica. Se ela sair é porque resisti.
 
Luís Fernando Veríssimo



sexta-feira, 29 de novembro de 2013

10 perguntas e 10 respostas para compreender a dívida

"A dívida está a servir para destruir países. O nosso é um deles. Destruir emprego, destruir o direito universal à saúde, à educação, à cultura, a pensões dignas. Todos os compromissos estão a ser rasgados. Invioláveis só os direitos dos credores. Compreender a dívida, conhecê-la, é o primeiro passo para a vencer.
Sobre a dívida há muitas perguntas, algumas delas sem resposta. Aqui estão dez perguntas muitos frequentes e dez respostas para difundir e debater."

Ler documento em baixo ou aqui.