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segunda-feira, 7 de abril de 2014

O mestre da liberdade


 
Espinosa, um verdadeiro príncipe no reino da filosofia, distinguiu no seu Tratado Político entre "potentia" e "potestas", a potência, poder para, poder de e o poder sobre (o outro). Investir no segundo despoja-nos do primeiro. Apesar das aparências nos dizerem o contrário, todos os tiranos (nos quais se incluem os “mercados”) são impotentes e escravos que perderão a sua vida para defender o poder que inevitavelmente lhe escapará.
 
Espinosa é o filósofo da liberdade, que nos alivia do peso esmagador da tirania e da servidão do imaginário da transcendência, do imaginário do medo e do terror (medo de Deus, medo dos homens, medo do desejo, medo dos governantes, medo da mudança), que nos faz compreender os afetos em vez de maldizê-los, que nos convida à alegria do pensamento e a descobrir que a liberdade é a potência do corpo e da mente.
 
Na sua obra, Espinosa procurou descobrir a servidão humana, em todas as suas formas, ilusoriamente imaginadas como liberdade. De tal maneira que a pergunta que colocou resume todo o programa da filosofia política: “Por que razão os homens perseguem a servidão como se procurassem a liberdade?” (Espinosa, via Deleuze e Guattari, em O Anti-Édipo, Capitalismo e esquizofrenia).  
 
Na  construção da sua resposta procurou caminhos pelos quais a verdadeira liberdade pudesse tornar-se desejada e acessível a todos os seres humanos. Localizou na sua época os lugares onde se alojavam as causas da servidão: superstição religiosa, tirania teológica, despotismo político e ignorância. As causas dessa servidão encontrou-as em nós mesmos enquanto seres passionais. Indagou, então, o que poderia ser feito para governar as paixões de maneira a desfazer a superstição religiosa, quebrar a tirania teológica, derrubar o despotismo político e alcançar o saber verdadeiro, oferecendo a sua própria filosofia como expressão desse caminho libertador.
 
 
A 30 de julho de 1881, um outro filósofo, Nietzsche, escreveu ao seu amigo Franz Overbeck um bilhete-postal dando conta das suas leituras sobre Espinosa e de quanto isso o inspirou.
 
Por essa altura, Aurora acabara de sair e Nietzsche, instalado em Sils-Maria, está prestes a dar início ao Zaratustra. Entre outras solicitações, pede a Overbeck dois volumes da biblioteca de Basileia, um deles é o volume sobre Espinosa de Kuno Fischer, um professor de filosofia de Heidelberg que escreveu a História da Filosofia Moderna. Overbeck atendeu ao pedido e Nietzsche lançou-se à leitura.
 
No postal que dirigiu ao seu amigo, que lhe fizera a gentileza de obter o livro, Nietzsche fará uma confissão comovida do efeito que aquele encontro, para lá das “diferenças enormes”, lhe provocou. Deixa salientar a alegria incontida do encontro, da passagem “da solidão para a dualidade”, como a alegria de um soldado que, sozinho e entrincheirado, encontra um companheiro de luta.
No postal que escreve em Sils-Maria ao seu amigo, diz-lhe Nietzsche: “estou inteiramente espantado, inteiramente encantado! Tenho um percursor e que percursor! Eu não conhecia quase nada de Espinosa (mas agora vejo que) a sua tendência geral é idêntica à minha: “O conhecimento é o mais potente dos afetos”. (Friedrich Nietzsche, A Franz Overbeck em Basileia (cartão-postal), Sils-Maria, 30 de julho de 1881”)

 
Foi assim que o filósofo alemão resumiu o poder que o ato de conhecer tem sobre a vida de um indivíduo. No século XVII, Espinosa tinha enunciado uma afirmação semelhante.

 
Galileu, outro verdadeiro príncipe no reino da ciência, resumiu, de certa forma, toda a força da "potentia" criadora quando afirmou, em condições pessoais particularmente duras e complicadas: “contudo, ela move-se”.
E o que a faz mover é também o conhecimento, “o mais potente dos afetos” porque através dele o ser humano é capaz de descobrir forças e poderes para além dos seus, acabar com formas de servidão e modificar a (sua) realidade.
 
O poder também se diz de potentia e não somente de potestas.

 

Referência Bibliográfica

Nietzsche, Friedrich, “Friedrich Nietzsche, A Franz Overbeck em Basileia (cartão-postal), Sils-Maria, 30 de julho de 1881”, p. 190, in Santiago, Homero (2011). Entre Servidão e Liberdade. São Paulo: Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humana
 
 
 

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