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terça-feira, 28 de maio de 2013

Ao sucesso

Louis Marie de Schryver, Avenue des Champs-Élysées

“É importante que os professores sejam responsabilizados pelo desempenho dos alunos”

Se um professor for “eficiente” pode ter turmas maiores e deve ser pago com base nos resultados dos alunos, diz o norte-americano.
 
 
Duas ideias iniciais:
Há bons e maus professores, como há bons e maus profissionais em qualquer outra área.
Nenhum professor pode considerar que é alheio aos resultados escolares dos seus alunos.  
Mas isto não significa que “a chave para melhorar o sistema escolar esteja na melhoria da qualidade dos professores”. Aliás, o autor que defende este princípio não consegue sequer identificar as características de um “professor eficiente / de qualidade”.
Existindo inúmeros outros fatores que interferem na aprendizagem dos alunos - meio social de origem, inteligência, idade, motivação, experiências anteriores, etc. – como é que se consegue isolar a variável “qualidade dos professores” e afirmar que essa variável é aquela que é determinante.
Refere o norte-americano que “um estudante que tem um mau professor pode ficar para trás na sua carreira académica, para sempre (…) vai para o ano seguinte com um atraso, o que o pode atrasar cada vez mais.” É verdade que um estudante que tem um mau professor, não aprende, mas desses, nem todo ficam para trás para sempre, alguns terão o apoio necessário para ultrapassar essa dificuldade (acesso mais facilitado ao conhecimento, encarregados de educação mais esclarecidos, explicadores, colégios privados, etc.).
 

Portanto, segundo o norte-americano da notícia anterior, os professores destas 69 mil crianças, expostas a situações de negligência e violência, muitas das quais com problemas de absentismo e insucesso escolar, deverão ter um ordenado inferior, pois devem ser pagos com base nos resultados dos seus alunos; enquanto que estas crianças podem ficar mais descansadas porque ficam a saber que a chave para um bom resultado escolar não está nas suas condições de vida, mas está na eficiência dos seus professores.


O outro aspeto digno de registo nesta entrevista é a “solidez” das conclusões das investigações internacionais nas quais o norte-americano se apoia.

Desde:
“A investigação internacional dá algumas pistas…”
“O que a investigação sugere…”

Até:
“A investigação ainda não revelou o número ótimo de alunos por sala.”
“A investigação falha na descrição das características ou do comportamento de um “professor eficiente.”
“A investigação não é conclusiva em relação a essa questão” (“todos os estudantes são bons se tiverem um “professor eficiente”).

Afinal, em que é que ficamos nas “investigações internacionais”?
 

sábado, 25 de maio de 2013

A Vénus da razão


Matemático resolve problema com três séculos

O peruano Harald Andrés Helfgott, desvenda um dos mais difíceis problemas numéricos da Historia, a conjetura dos números primos de Goldbach.
 

De que forma este matemático resolveu este problema?


Declaração de interesses: não sou da área da matemática.
 
A física estuda o mundo natural e a biologia os organismos vivos. A partir de um contacto com entidades do mundo físico formulam hipóteses que serão ou não confirmadas de acordo com procedimentos científicos próprios das ciências experimentais. Até aqui tudo bem.
 
E a matemática? O matemático, ao contrário do físico ou do biólogo não tem nada para observar, os seus objetos só existem como coisa mental. Na fotografia vemos Poincaré sentado a uma secretária e não num laboratório, manipulando substâncias. Não há laboratórios de matemática porque não há nada para ver, ouvir, cheirar ou tocar. A matemática não vive no mundo real exterior, está fora do tempo e das circunstâncias do universo. Tudo se passa algures na cabeça de um matemático, que lida com os objetos mais remotos e inumanos que a mente já concebeu. A mente alimenta-se da sua própria razão.
Por essa razão, a matemática é a única ciência que lida com a verdade. Passaram dois mil anos e o teorema de Pitágoras está perfeitamente intocável, como se tivesse sido descoberta no ano passado. A matemática avança por continuidade e acumulação e não por rutura ou substituição e os matemáticos ainda não chegaram à conclusão se o que fazem é inventar ou descobrir. Afinal, onde existirá tanta ordem?

A criação matemática seria o produto de qualquer coisa parecida com aquela que, segundo Cavaco Silva, também terá produzido a sétima avaliação da troika: uma inspiração de Nossa Senhora de Fátima.
 
Descendo à terra, e tratando-se de uma ciência dedutiva, dir-se-á que o pensamento matemático se constrói a partir do raciocínio lógico-dedutivo. Porém, segundo Poincaré o pensamento matemático vai muito além do raciocínio dedutivo. Nos seus aspetos mais criativos, e é desses que estou a falar, a matemática depende da intuição e da imaginação, às vezes até mais que da dedução.
A intuição é uma faculdade mental que permite obter o conhecimento de uma maneira direta, uma entrada imediata no entendimento de uma qualquer realidade, sem que tenha passado discursivamente por uma explicação ou demonstração. Uma agudeza que penetra até à essência: olha-se para um lugar onde só existem fragmentos e, subitamente, surge a perceção do todo, cada elemento ligado ao outro por uma estrutura subjacente e invisível, o formalismo matemático virá depois. Mas intuitivo não é sinónimo de fácil. A capacidade de descobrir relações insuspeitas entre coisas é bastante difícil até, existindo muitas verdades profundas e difíceis que foram apreendidas pela intuição.

 
A intuição de uma totalidade proporciona um prazer estético, a beleza de haver contemplado a verdade, por um momento, comparável ao prazer da música, da pintura ou da literatura. Os grandes matemáticos são estetas, também falam em beleza e lidam com objetos perfeitos e bonitos, pelo entusiasmo vibrante da criação matemática, onde a intuição e imaginação são instrumentos tão importantes como o são para o pintor, o escritor ou o músico.
Para a maioria das pessoas, a utilidade da matemática é óbvia: construir casas ou pontes, fazer projeções económicas, conceber algoritmos para programas de computadores. Mas boa parte dos matemáticos considera essas aplicações desinteressantes. "A verdadeira matemática dos verdadeiros matemáticos, a matemática de Fermat, Euler, Gauss ou Riemann, é quase toda ela inútil." Como se aos matemáticos, coubesse levar às últimas consequências as possibilidades da razão e, assim, aferir até onde ela é capaz de ir. Os usos vêm depois - quando vêm. (in “Artur tem um problema”)

 
Dito isto, poder-se-á pensar que o prazer da descoberta ou o sentimento estético só se aplicam aos grandes matemáticos, sendo verdade que nem todos podem aceder à contemplação estética da verdade porque a maior parte das pessoas que trabalha diariamente com a matemática não produz matemática. Professores e alunos, numa sala de aula, debruçam-se sobre a verdade que alguém fora daquela sala um dia descobriu.
Poder-se-á pensar assim, mas não é inteiramente verdade. A “descoberta” matemática não se refere apenas aos teoremas inéditos para todas as pessoas no mundo, mas àqueles que são inéditos para cada um de nós, pois a matemática também pode ser uma experiência pessoal em que cada um deve procurar o seu caminho para a descoberta.

Esse é o verdadeiro interesse da matemática numa sala de aulas, o de proporcionar aos alunos a seu própria experiência da descoberta. O mesmo vale para uma outra disciplina conceptual, a filosofia.
 







O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.
óóóó — óóóóóóóóó — óóóóóóóóóóóóóóó
(O vento lá fora).
  Álvaro de Campos, Fernando Pessoa

 
Interessante e a propósito: “Artur tem um problema”
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-40/vultos-das-ciencias/artur-tem-um-problema

 
***************


Kurt Gödel e Alan Turing, dois génios matemáticos com vidas destroçadas pela realidade. Habitavam outro mundo. Por vezes, a razão tem destas coisas.
 
                                      Alan Turing                                                               Kurt Gödel com Einstein em Princeton 

 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

No purgatório, a olhar para o céu


 Florian von Donnersmarck, A vida dos outros
 
“A polícia da cidade russa de Volgogrado está a interrogar três homens suspeitos do homicídio de um homossexual. O corpo da vítima, nu, foi deixado num descampado da cidade. O crânio fora esmagado e o homem violado com garrafas de cerveja.” (Ler mais)


A vida dos outros, de Florian Henckel von Donnersmarck, é um filme sobre os fantasmas dos regimes totalitários. A história, que começa em 1984 num país cortado pelo muro e vai até 1991, à atual reunificação, revela-nos a ação da Stasi, a polícia política do regime da antiga República Democrática Alemã.

Há uma cena extraordinária neste filme. Aquela em que agente da Stasi Gerd Wiesler está no sótão do prédio onde vive o dramaturgo George Dreyman, cuja vida tem por missão espiar. Sozinho, está sentado com os auscultadores nos ouvidos. Na sua eficiência calma e implacável, o funcionário HGW XX/7 tudo ouve e regista.

Será nesse ato de vigiar a vida dos outros que surge a possibilidade de escutar uma outra palavra e de ser tocado por ela. Está a ouvir uma sonata e aquela música tocada ao piano pelo escritor que vigia, comove-o profundamente. Naquele momento, Wiesler não está a espiar Dreyman, está a ouvir a Appassionata de Beethoven.

A sua escuta é agora duplamente clandestina: trai o escritor porque o espia e trai o regime porque, ao ouvir a música, deixa de o espiar. É dali, do interior da sua miséria moral que o funcionário HGW, com os auscultadores da Stasi, extrai a sua humanidade, não numa insurgência política ativa contra o regime, a cuja lógica impiedosa ele terá que pagar o seu preço, mas na capacidade subjetiva, e redentora, de sentir o assombro por uma sonata para piano.

 
De onde vem este assombro?
Não sabemos. Não sabemos como desenvolver o que há de melhor em cada um de nós. Mas sabemos que só a educação pode contribuir para essa possibilidade. Não quer isto dizer que a educação consegue fazê-lo, quer apenas dizer que se alguma coisa consegue fazê-lo será a educação. Não estou, obviamente, a referir-me aos projetos utópicos de educação totalitária, mas apenas à possibilidade de arrancar da alma o assombro pela arte, por exemplo. Sem esse esforço intencional e deliberado da educação dificilmente conseguiremos um melhor desenvolvimento das capacidades do ser humano, ou se conseguirmos, terá sido o arbítrio de forças que não dominamos, uma espécie de deusa da fortuna, que, miraculosamente, modificaram a bestialidade, como a da daqueles três suspeitos de um brutal homicídio, num “homem bom”.

A lenta agonia da educação  vai gerando manchetes de crise (como esta), mas até ao momento não se questionou verdadeiramente  qual será o custo de não se gastar esse dinheiro.