Falar para um candeeiro...

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quinta-feira, 16 de maio de 2013

Versões da história

 
 
"Cadernos de memórias coloniais": Isabela Figueiredo, entre outras coisas, procura saber quem foi o seu pai, alguém que existiu durante os tempos da colonização.

"Ficheiros secretos da descolonização de Angola": Leonor Figueiredo procura encontrar o seu pai, alguém que desapareceu sem rasto no período da descolonização.

Dois pais, duas filhas, duas histórias. Duas narrativas muito diferentes para compreender o império, contado na pós-colonialidade. Será interessante ler as duas.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Era uma vez, há muito tempo, um feiticeiro

No Bocoio




Memória

(…) Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade



A memória produz não apenas a descrição de factos, mas a sua representação. Frequentemente representamos um passado mais idealizado do que real, especialmente se esse passado se situar nos confins mais afastados da infância.

Mas a minha infância, de facto, foi diferente. Hoje, que vivo no centro da cidade, tornou-se quase impensável imaginar que nasci e vivi numa pequena vila em Angola, onde não havia televisão, telefone ou internet. Não havia transportes públicos, supermercados ou jornais e até a água canalizada e a luz elétrica tinham sido instaladas pouco tempo antes de eu nascer. Uma infância muito longe no espaço e ainda mais distante no tempo, algures numa espécie de “começo primordial”. Desse passado, quase mítico, fará sempre parte uma estranha personagem que aparecia por vezes na vila: o Kanherenra (a grafia não deve estar correta). Ainda me lembro de parte da sua ladainha (que não reproduzo porque não sei umbundo), que ele recitava em voz alta, de pé e de olhos fechados, vestido com peles e outras roupas estranhas, com muitos adornos e objetos pendurados.
Segundo os bailundos, ele terá ficado num estado de desvario, vítima de um kazumbi (espírito), pois o universo daqueles povos estava ocupado por muitas forças e poderes. Mas a infância, que também estava habitada pelas minhas “forças e poderes”, transformou o alienado Kanherenra no meu feiticeiro. Dorothy e os seus três companheiros (quatro com o Totó) também descobrem no final da estrada amarela que o feiticeiro de Oz que tanto procuravam afinal não era um verdadeiro feiticeiro, mas uma pobre criatura que, tendo aportado na Terra de Oz no seu balão desgovernado, fingia ser um poderoso mágico.
 Há tempos, descobri através de um familiar uma autêntica e inestimável raridade, que se encontrava fechada há muitos anos num verdadeiro baú do tesouro, numa camera Super 8, com imagens registadas ainda sem som. De repente, como uma fénix, o meu feiticeiro ressurgia do passado. Como um fantasma silencioso, a aparição espectral da sua imagem estava ali de novo, diante dos meus olhos.
Vejo as imagens: ele segura numa das mãos alguns objetos (um saco, um livro (?), um bordão com um pano amarrado…), enquanto move a outra para baixo e para cima, ao compasso da sua ladainha. Trás um lenço amarrado à cabeça e às costas uma sacola e uma cabaça. Ao fundo vê-se o morro Ulombe. Crianças e adultos ouvem-no, riem e falam dele. Numa outra situação, alguém fala mais demoradamente com ele, aproximam-se várias crianças, passa um carro ao fundo. E ali fico eu entre os dois a ouvir a conversa e a olhar para ele. Pouco depois ele despede-se e vai-se embora. Aparece agora uma rapariga negra na imagem. Viro-me e ficamos de costas a olhá-lo enquanto se afasta. Vejo-o partir.
Quando eu morrer e morrerem todos os que um dia ainda nasceram num país sem televisão e tiveram o seu próprio feiticeiro, morrerá também uma parte da história para a qual não existem museus, exposições ou arquivos, como qualquer outro admirável mundo velho.


 


 







 
 
 

domingo, 12 de maio de 2013

Matéria tributável


 
 
“…a imperiosa necessidade de restabelecer um novo imposto directo, tendo por matéria tributável a cubata…”

Aí os temos de novo a tributarem a "cubata" do "indígena", num país onde a política de habitação sempre foi favorável à especulação imobiliária e à ganância bancária, ativamente promovida pelo estado (deduções fiscais nas contas poupança-habitação) e onde sempre se impediu a criação de habitação para aluguer.
Muitos são proprietários da casa onde residem, pagam ao banco para aí residirem e pagam o IMI porque aí residem.

 

 

 

Aos fiéis amigos

        
Elliott Erwitt
 
PONTE AÉREA

“O comandante do avião mandou-me perguntar se podíamos partir. À nossa volta era o deserto, algumas viaturas abandonadas, outras incendiadas e um único ruído, o dos motores.
Pedi-lhe para aguardarmos mais algum tempo. Minutos depois ouviu-se e viu-se um carro a aproximar-se pelo meio da pista. Parou a escassos metros do avião. Açodada, saiu uma senhora com cerca de 50 anos trazendo consigo uma mala e alguns embrulhos.
Seguiu-a um homem, um pouco mais velho, tisnado pelo sol africano, aspeto contrariado, levando à trela um possante pastor alemão.
A mulher foi a primeira a entrar a bordo do avião; o homem fora entretanto intercetado por um membro da tripulação que o informara da impossibilidade de embarcar o animal.
Recordo-me da cara quase radiante com que chamou a mulher dizendo­-lhe que iam ficar; do cão é que não se separava. Quem não se conformou foi a esposa que do alto das escadas ia mencionando nomes de familiares, amigos e conhecidos que já tinham partido.
Subi as escadas e coloquei a questão ao comandante; ele também compreendeu o significado profundo daquele momento e a angústia de quem partia sem o desejar. Havia que se encontrar uma solução. E ganhou a mulher. O cão entrou mesmo na cabina, tendo-se improvisado uma rede de proteção entre dois assentos, atrás da qual se acomodou sem causar quaisquer problemas durante a viagem.”
 
General Gonçalves Ribeiro, A vertigem da descolonização: da agonia do êxodo à cidadania plena, Editorial Inquérito, Mem Martins, 2002, p.374



“Metemo-nos no carro e o tio Zé arrancou (em direção ao aeroporto). A Pirata correu, correu, correu atrás do carro como se fôssemos parar um pouco mais à frente, para a deixarmos entrar. Às vezes fazíamos essa brincadeira, de certeza que a Pirata pensava que estávamos a brincar com ela porque não parava de correr. Correu o mais que pôde mas o tio Zé conduzia tão depressa. A Pirata foi ficando para trás, cada vez mais para trás, até ser um ponto branco na avenida, um ponto branco pequenino, pequenino, pequenino.”
 
O Retorno, Dulce Naria Cardoso (2012) Tinta-da-China, Lisboa, pp. 80-1
 


Uma lembrança a todos os fiéis amigos que ficaram.

"Retornados"

Alfredo Cunha
“Então a metrópole afinal é isto.”
O Retorno, Dulce Maria Cardoso
 
A força simbólica desta fotografia, acerca da qual já muito se disse, é, de facto, notável. O lado direito da imagem aponta-nos para o mar e para o império, o lado esquerdo mostra-nos os objetos devolvidos pela história, como os destroços na praia quando o mar se retira com a sua força viva. O Padrão dos Descobrimentos e os caixotes dos “retornados”, fisicamente lado a lado e simbolicamente anunciando a celebração e o fim do império.

Em 1975, apareceu uma nova categoria social no Estado e na sociedade portuguesa para quem encaixotou estas enormes malas de madeira: os “retornados”. No entanto, por se ter tratado de um processo migratório involuntário, grande parte dos visados não se reconheceu na categoria de retornado (repatriado), mas de expatriado ou refugiado. Na realidade, se muitos regressavam ao país de origem ou de nacionalidade, outros nunca tinham estado na metrópole do império.

Porquê esta designação? A categoria de “retornado” tinha a vantagem de ter um significado mais neutro e menos politizado do que o de “refugiado”, logo bem menos desconfortável. Longe do estatuto político, a definição legal de “retornado” recobria até uma dimensão económica (“carecidos de apoio”), de forma a serem abrangidos nos programas de assistência do IARN (a Resolução de Conselho de Ministros que “define a qualidade de retornado” - Resolução nº 105 de 5 de maio de 1976 -, determina também uma “sindicância a eventuais irregularidades do IARN” - pelos vistos, na altura existiam também falsos retornados).

Ser “retornado” era, cumulativamente, ser cidadão português, ter residido e regressado das ex-colónias e carecer de apoio; ser “refugiado” era integrar as razões por que isso aconteceu, o que seria sempre mais complicado.

Mas, independentemente da designação ou das suas razões, uma coisa é certa: ser “retornado” era sinónimo de “colonialista” e “explorador dos africanos” (dos “pretos”, como se dizia). Como se o colonialismo, uma enorme e complexa estrutura política, económica, social e cultural que emanava de Lisboa, pudesse ser sumariamente depositado naquelas pessoas que viveram nas colónias, como se o longo sistema colonial pudesse ser  transformado agora numa mera ação individual dos “retornados”, nos ombros dos quais esse peso era colocado, como se naqueles caixotes, junto ao Padrão dos Descobrimentos pudesse caber  todo o império.

Ovalle-Bahamón em “The Wrinkles of Decolonization and Nationness: White Angolans as Retornados in Portugal” refere o papel que os “retornados” desempenharam no processo de purificação, de catarse moral da sociedade portuguesa que assim se procurava libertar do seu passado colonial, depondo-o sobre os “retornados”. “Com efeito, os retornados tornaram-se o referencial do colonialismo em Portugal e a sua presença em Portugal inspirou a transformação da nação portuguesa imaginada. A presença dos retornados permitiu a reinvenção de Portugal e dos portugueses como parte do sistema dos estados-nações europeus, distanciando a nação do colonialismo e localizando os retornados nas margens da portugalidade.

(…) Em primeiro lugar, o colonialismo ele próprio precisava de ser reconceptualizado, ou melhor dizendo, renomeado e depois descartado como parte de um passado injusto. Em segundo lugar, os portugueses e o seu espaço nas relações coloniais de poder tinha que ser definido e denunciado em nome de uma “purificação” histórico-moral de Portugal como um estado-nação moderno. (…) a presença em Portugal dos retornados facilitou a reconstrução de Portugal, servindo de “depositários das estruturas coloniais”, os responsáveis pelo colonialismo, enquanto simultaneamente afastavam os retornados da nação portuguesa.

A descolonização para Portugal produziu um “momento presente “ uma conjuntura que reformulou o colonialismo, não como um sistema de estruturas políticas e económicas, mas como o somatório das ações individuais daquelas pessoas em terras distantes.” (Ovalle-Bahamón, 2003, p. 159-160) (tradução minha)

Ao fim dos “quinhentos anos” de Portugal como grande nação imperial, o “regresso” dos “retornados”, como a última presença colonial, promoveu a possibilidade da sociedade portuguesa re-conceptualizar e transformar a anterior imagem de Portugal. Portugal era agora um país desembaraçado do império, do qual nada mais restava do que apenas alguns caixotes, que podia livremente caminhar em direção à Europa comunitária.

Um projeto europeu que hoje afinal sabemos que produzirá também os seus destroços. Quem ficará com os “caixotes” da Europa?

  

Bibliografia
Ovalle-Bahamón, Ricardo E. (2003). “The Wrinkles of Decolonization and Nationness: White Angolans as Retornados in Portugal” in Europe’s Invisible Migrants (Andrea L. Smith (ed.), Amsterdam University Press, Amsterdam, pp. 159-160) (Tradução minha)
Resolução de Conselho de Ministros nº 105 de 5 de maio de 1976

 

Descolonizar de “calças descidas”

A metamorfose de Narciso, Salvador Dali

"A vontade das pessoas, quer como governantes, quer como concidadãos de impor aos outros as suas próprias opiniões, é tão ativamente apoiada por alguns dos melhores e dos piores sentimentos inerentes à natureza humana, que muito raramente é mantida sob controlo por outra coisa que não a falta de poder."

Stuart Mill, Sobre a liberdade, Edições 70, Lisboa, 2006, p. 46

Diz Gonçalves Ribeiro no seu livro “A vertigem da descolonização: da agonia do êxodo à cidadania plena” que “Portugal, ao fim de séculos de permanência em Angola, não podia sair dali com as calças descidas até aos calcanhares. No mínimo, havia que agarrá-las pelos joelhos.” Penso que será fácil, concordar que saímos de Angola com as “calças descidas pelos joelhos” senão mesmo “até aos calcanhares”. Por que razão isso aconteceu, já será mais discutível.

 
Os ditadores, na sua enorme vontade de “impor aos outros as suas próprias opiniões”, considerarem-se iluminados, como a imagem de Narciso ao espelho, não precisam de ver nem ouvir o que se passa à sua volta.
Salazar, que lançou o “Ato colonial” (1930) e para quem “a pátria não se discutia” foi incapaz de compreender a crise do sistema colonial europeu e a nova ordem mundial saída do pós-guerra que condenava a ocupação dos países (a começar pelas ocupações da Alemanha nazi, a grande derrotada da II Guerra).

Foi incapaz de entender as sucessivas condenações na ONU e o isolamento da comunidade internacional. A conversão, meramente semântica, das colónias em “províncias ultramarinas” na revisão constitucional de 1951 (que revoga o “Ato Colonial”), foi apoiar-se numa terminologia da Primeira República, que não convenceu ninguém, uma vez que a nova designação subentendia serem as colónias um prolongamento natural do território português, como qualquer outra província de Portugal continental; e a adoção do luso-tropicalismo foi também uma manobra retórica que não convenceu. Esta ideologia humanista exaltava a capacidade dos portugueses para se relacionarem com os outros povos, numa assimilação que, de facto, não existia, pois mantinha-se em vigor o “Estatuto do Indígena”, só revogado em 1961.
Foi incapaz de tirar conclusões da primeira operação de repatriamento na sequência de processos de descolonização, que começou logo em 1945, com o regresso dos holandeses que se retiravam da Indonésia (a segunda operação em larga escala foi em 1962 com o repatriamento de cerca de 1 milhão de franceses que abandonavam a Argélia). Aliás, a plena, e tardia, ocupação de Angola termina na altura em que os outros países começavam a retirar-se: a última campanha militar tem lugar em 1940-41 (contra os Herero, no sul de Angola) (Pélissier, 1986, p. 272), enquanto em 1945, a Holanda começa a descolonizar. Talvez não seja incapacidade de compreender, mas puro e simples atraso que a ditadura, avessa à mudança, terá ampliado.
 Foi incapaz de negociar com os Movimentos nacionalistas, (onde via “terroristas” e “inimigos” e nunca adversários). Em Angola os conflitos armados começam em 1961, mas a formação dos primeiros partidos é anterior (a título de exemplo, a UPONA (União das Populações do Norte de Angola) e a FUA (Frente Unida Angolana) apareceram em 1951, e o PLUA (Partido de Luta Unida dos Africanos em Angola) e o MPLA (Movimento para a Libertação de Angola) em 1956). Os movimentos de libertação não se lançaram imediatamente na luta armada, mas solicitaram ao governo português que resolvesse pacificamente o problema colonial, recorrendo os seus dirigentes à ONU com essa finalidade. Perdidas as esperanças, passaram à luta armada, que começou em Luanda, no dia 4 de fevereiro de 1961, aquando do ataque à prisão militar e ao quartel da polícia que encerravam alguns dos chefes e militantes dos movimentos de libertação.
Em 1970, Marcelo Caetano, em estado de choque, ficava a saber que o Papa Paulo VI recebia em audiência privada, três “terroristas” (Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos), que não eram apenas inimigos declarados do colonialismo português, eram homens que chefiavam movimentos de luta armada; Em 1972, o Conselho de Segurança da ONU, na sua primeira reunião em África (Adis Abeba), também recebeu representantes do MPLA, PAIGC e Frelimo.
Enfim, o isolamento diplomático português só era ultrapassado pelos “Estados párias”, como a Rodésia de Ian Smith e a África do Sul do apartheid (qualquer coisa como é hoje a Coreia do Norte). Salazar “orgulhosamente só”, demorou, adiou, tapou, contornou. Marcelo Caetano, prolongou a agonia, meramente acenando com a mera possibilidade de um mero federalismo (já depois da Revolução, Spínola voltaria a acenar com a mesma solução federalista).
A administração de Marcelo Caetano, talvez motivada pelas dificuldades já visíveis, ainda apresentou alguns sinais, designadamente ao nível de contactos diplomáticos, que deixaram antever alguma folga diante dos adversários. Mas a publicação em Fevereiro de 1974 do livro de Spínola Portugal e o Futuro (que vendeu mais do que 100 mil exemplares e que basicamente afirmava que as guerras coloniais, que duravam desde 1961, não tinham solução militar, mas apenas política e que o problema ultramarino estava numa encruzilhada e era necessário que a Nação debatesse o problema) e a recusa dos generais Costa Gomes e Spínola - os dois principais chefes militares do país - em prestar vassalagem a Caetano, detonaram o seu colapso (embora, curiosamente, Marcelo Caetano tenha sido ovacionado por milhares de pessoas em Março de 1974, num apinhado estádio José de Alvalade quando assistia ao derby Sporting-Benfica. Estava a escassas três semanas de ser transportado num chaimite do Quartel do Carmo para o avião que o levaria para sempre para o exílio no Brasil, sem nunca mais ter manifestado vontade de regressar a Portugal).
No ultramar, a solução militar estava esgotada porque a guerra estava perdida. Na metrópole, a contestação à guerra em África, considerada injusta e sem saída, alastrava pela sociedade portuguesa que, em amplo consenso, reclamavam o seu fim. Episódios como os da vigília na capela do Rato (Dezembro de 1972) dão visibilidade ao protesto diário, que neste caso assume apenas um carater simbólico por envolver a igreja nesse protesto. Por uma trágica coincidência, durante os dias da ocupação da capela do Rato, o Exército português em Moçambique massacrava a população da aldeia de Wiriyamu, entre outras, numa operação militar que comprometeu irremediavelmente a já débil credibilidade internacional do regime (em 1973, o massacre, denunciado pelo jornal «Times», na véspera da visita de Caetano a Londres, provocou manifestações constantes de condenação e o enxovalho a Marcelo Caetano).
O esforço de guerra produzia o inevitável cansaço psicológico, além do peso das despesas e da dívida dele resultante, que impedia a melhoria das condições de vida da população em Portugal. Esvaziada a resolução militar, só existia uma solução política e nesta restava apenas a conceder a independência aos países africanos.
 
Os “Rosas Coutinhos” só apareceram depois. Quando já pouco ou nada havia a fazer, senão apenas entregar Angola ao amigo soviético. Com isso “desceu demasiado as calças”, os outros Movimentos não gostaram da ideia e Rosa Coutinho, presidente da Junta Governativa de Angola, teve que retornar à (ainda) metrópole. Foi, afinal, o primeiro retornado. Seguiu-se mais meio milhão, porque se o Estado Novo nunca resolveu o conflito colonial, o novo regime fê-lo, “exemplarmente” em menos de um ano (o repatriamento dos holandeses da Indonésia estendeu-se de 1945 a 1957, desdobrando-se por 4 vagas migratórias).
No meio disto tudo, não é claro por que razão, no período pré-independência, estando o governo português, naturalmente desprovido de meios humanos e logísticos para suster a violência, os atentados, as pilhagens, os raptos e os assassinatos que alastravam rapidamente pelo território angolano e que descambaram numa guerra civil sangrenta, por que razão, dizia, a ONU nunca interveio, num conflito que diária e visivelmente atingia proporções cada vez mais assustadoras (esta situação seria certamente do conhecimento da ONU, cujo secretário-geral, Kurt Waldheim, esteve em visita oficial a Portugal em Agosto de 1974 para debater com Mário Soares a situação dos territórios africanos sob administração portuguesa tendo em vista os respetivos processos de descolonização).
Como é sabido, esta situação de conflito em Angola evoluiu mesmo para uma guerra civil, onde durante quase trinta anos, morreram mais angolanos às mãos uns dos outros do que em catorze anos de luta pela independência, sem falar na quantidade absurda de deslocados.
Depois de apresentada esta dúvida, é forçoso reconhecer que, se internamente a obstinação/indecisão interna de Salazar/Caetano contribuíram para o isolamento e impasse, externamente, os restos do Império Português desapareceram devido a fortíssimas condições internacionais que atuaram nesse sentido.
As colónias portuguesas em África ficaram integradas na zona de confluência dos poderes das superpotências em competição e não resistiram à luta que travaram para o seu domínio. Na verdade, as “calças desceram até aos calcanhares” porque em Portugal, a comissão liquidatária[1] não tinha qualquer capacidade de conduzir a situação. Numa bipolarização Este/Oeste, as superpotências (União Soviética e EUA), empenharam-se no despique “anti”-colonialista que lhes aumentou as respetivas áreas de influência e precipitaram a derrocada da supremacia política de Portugal e o desmantelamento dos impérios europeus.
Os restos do Império português foram vítimas das transformações do mundo em zonas de confluência dos poderes políticos das superpotências e, em particular, da competição e da luta que, entre si travaram para o seu domínio. A rebelião no Ultramar português, o golpe de Estado em Portugal e a descolonização final, enquadram-se na rivalidade e na luta que desde 1945 se desenvolveram entre americanos e russos e foram uma das concretizações da sua luta para a posse completa do globo e, em particular, dos territórios de África (Gonçalves Martins, 1986, Capítulo IV).
Depois da conferência de Ialta, que dividiu a Europa, um novo “Tratado de Tordesilhas”, dividiria também o continente africano em zonas de influências das superpotências. A Angola calhou-lhe em sorte a União Soviética, que afinal só durou (mais) 14 anos…Caiu de podre em 1989, em Berlim, nos escombros de um muro. Na disputa pelo mundo, ganhou o capitalismo. Aí o temos, selvagem e predador.
Agora, na nova ordem mundial ex-neo-pós-colonialista, o “socialismo democrático” é o novo credo ideológico em Angola, onde a delapidação capitalista continua, e a fome e a pobreza também. Quase 40 anos depois da Independência, a que os angolanos justamente aspiravam e à qual tinham pleno direito, a democracia e a cidadania plena em Angola continuam por cumprir. Mudaram-se os tempos mas as vontades nem por isso.

  

Bibliografia
 Martins, Manuel Gonçalves, A Descolonização Portuguesa (as responsabilidades), Livraria Cruz, Braga, 1986
Oliveira, César, Portugal, dos quatro cantos do mundo à Europa, A descolonização (1974-76): ensaio e documentos, Lisboa, Cosmos, 1996.
Pelissier, René, História das campanhas de Angola, resistências e revoltas, 1845-1941, vol. II, Estampa, Lisboa, 1986
Pezarat Correia, Pedro, Descolonização de Angola - A joia da coroa do império português, Editorial Inquérito, Lisboa, 1991
Reis Ventura, Os Dias da Vergonha, Reis Ventura. "De 25 de Abril de 1974 a 11 de Novembro de 1975", Os nomes e os acontecimentos da "Libertação de Angola"
Fernando Pereira Editor, Lisboa 1977
Ribeiro, Gonçalves, A vertigem da descolonização: da agonia do êxodo à cidadania plena, Editorial Inquérito, Mem Martins, 2002
 



[1] Rosa Coutinho, Mário Soares, Almeida Santos, Melo Antunes e outros que tais, vá lá que, compreensivelmente, façam parte dos “tesourinhos deprimentes” no baú das recordações de Angola para milhares de pessoas, mas não fizeram a descolonização. O próprio Almeida Santos reconheceu que os acordos de Alvor foram "um pedaço de papel" que "não valeu nada". Segundo diz, ele e Mário Soares (então ministro dos Negócios Estrangeiros) limitaram-se a escrever “o acordo em bom português" (http://www.angonoticias.com/Artigos/item/3516). Plenamente de acordo: um texto sem erros é mais bonito.
 

Ulombe: "a terra é menina e o tempo rapaz"*



Daqui a razão da escalada do Ulombe. Ele, ali está desafiador, majestoso, com os seus 2148 metros de altitude, esperando, silencioso que o devassem e, finalmente, o grande público o conheça.

  Escalada do Morro do Ulombe, 1973, Clube Recreativo e Beneficente do Bocoio

 
Há precisamente 40 anos alguém no Bocoio lançava o desafio de escalar o Ulombe. O Ulombe é um morro, uma entidade do mundo físico por onde, com mais ou menos esforço, se pode subir. Mas o “morro Ulombe” pode ser qualquer montanha, visível ou invisível, e “subir” pode também significar compreender, um “estar a caminho” de Karl Jaspers.

Aceito o desafio de subir o Ulombe, o meu Ulombe. Sobe-se através de ideias e palavras, na distância daquilo que é próximo, no sentido que vai das experiências imediatas para uma apreensão mais simbólica e conceptual da realidade. A subida é um movimento de interpretação, mas é também um movimento de recuperação contra o esquecimento. Não a recuperação analítica, historiográfica de um passado, com frequência muito polarizado ideologicamente (o colonial demonizado ou fantasiado), nem a recuperação romântica desse passado quebrado, como um certo “rei melancólico” que procurava aquela “omelete de amoras” saboreada na infância e a quem o seu cozinheiro alertava para o caráter irrepetível das experiências distantes e para a impossibilidade de qualquer retorno ao passado (Benjamim, 1987: 219). Mais do que o passado, o que se pretende é o presente, a contemporaneidade de alguém que recupera compreendendo ou que compreende recuperando, e que, por isso, tem a possibilidade de inscrever e re-significar.
 
“Subir o Ulombe” é um jogo de forças entre memória e esquecimento. Considerando a possibilidade de mediações entre o passado e o presente como temporalidades distintas, a subida deve apoiar-se numa rede de elementos geradores de lembranças. As fotografias, imagens-memória, “máquinas de fazer ver e de fazer falar”, “linhas de luz” (Deleuze, 1990:155), despertam e suscitam a recuperação e a compreensão de elementos invisíveis ou esquecidos. São um elemento fundamental de suporte à narrativa, que trazem coisas, pessoas, lugares e acontecimentos. Estas “imagens-objeto” antigas, carregadas de significação, com um “excesso de sentido” (Eliade, 1979:9) incapaz de ser totalmente exaurido, vêm ao encontro do sujeito, re-significando elementos do passado ao qual estão ligadas.

Nesta “subida”, que recupera e guarda a  memória de um lugar, que agora é um “lugar de memória”, a atitude deve ser semelhante à do cronista de Benjamin “que narra os acontecimentos sem distinguir entre os grandes e os pequenos e que leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história.” (Benjamin, 1994: 223)

 
Subo o Ulombe. Angola ficou-me na alma.


REFERÊNCIAS
*TÍTULO:
Sê como és: o sol é bom, o ar vivaz.
Do azul aos azuis, do verde aos verdes,
A terra é menina e o tempo rapaz.”
Alexandre O’Neill

 
FOTO
No texto: foto in http://retrovisor.blogs.sapo.pt/tag/diplomacia


BIBLIOGRAFIA
Benjamim, Walter, Obras escolhidas, Vol. II, Rua de mão única, Editora Brasiliense, São Paulo, 1987
Benjamin, Walter, Obras escolhidas, Vol. I, Magia e técnica, arte e política, Editora Brasiliense, São Paulo, 1994
Deleuze, Gilles. O que é um dispositivo? In: Michel Foucault, filósofo. Barcelona: Gedisa, 1990, pp. 155-161
Eliade, Mircea, Imagens e símbolos, Arcádia, Lisboa, 1979
Ferreira, Joaquim e Monteiro, Amílcar (1973). “Bocoio, 1973, Escalada do Morro do Ulombe”, editado pelo Clube Recreativo e Beneficente do Bocoio
Ricoeur, Paul, La mémoire, l’histoire, l’oubli, Paris: Éditions du Seuil, 2000
Ricoeur, Paul, “Architecture et narrativité”