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quarta-feira, 29 de maio de 2013

A festa das palavras


Mark Twain


Cão perdeu-se! Por que não?
Cão achou-se! Ainda bem!
Ainda melhor, por sinal,
Se o cão perdido e o achado forem um só e o mesmo
“lidos” no mesmo jornal! 
Alexandre O´Neill




A primeira frase do prefácio do livro “A realidade é real” (“How real is real”) de Paul Watzlawick (um dos fundadores da Mental Research Institute de Palo Alto na Califórnia), é esta: “Este livro fala sobre a forma como a comunicação cria aquilo a que chamamos realidade”.

Sem teorizar a pragmática da comunicação humana, que se aplica em situações de comunicação interpessoal, a frase exprime a ideia algo estranha de que a comunicação cria a realidade. Parece estranho mas não é.

A forma como esta notícia é dada cria a extraordinária realidade de uma mulher que “morreu” e que“ressuscitou minutos depois”. Esta notícia poderia ser comunicada de outra forma, a de que os médicos conseguiram uma reanimação após uma paragem cardíaca. Mas não era a mesma coisa. O que é a reanimação médica quando se pode ter a ressurreição?

Vale lembrar o comentário de Mark Twain a um (outro) jornalista: “A notícia da minha morte é um claro exagero", quando o recebeu em sua casa enviado para averiguar o sucedido.

Quantas realidades criamos todos os dias pelo milagre da comunicação?

 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Partilha esta batata por nenhuma razão


É importante dizer que o “mundo real social” a que muitos críticos das redes sociais se referem, nunca existiu realmente. Antes das pessoas viajarem de autocarro ou de comboio com a cabeça enfiada num smartphone, geralmente viajavam em silêncio. Não víamos pessoas a conversarem espontaneamente com estranhos. O sentimento de solidão sempre existiu.


Depois de ler esta notícia (aqui), não vou questionar se existe disseminação de informação sobretudo de má qualidade “onde as pessoas publicam fotografias desnecessárias e dizem coisas desnecessárias” ou se estamos a mudar o nosso modo de pensar, a ponto de nos tornarmos menos capazes de aceder a informação mais extensa e complexa, como a dos livros.

Também não vou questionar se afinal as redes são antissociais; se provocam angústias nos adolescentes e um “sentimento de fardo social”: mais amigos, mais gostos, mais fotografias, mais exposição pessoal que possa conferir mais “estatuto social”; nem  se experimentam um “sentimento de obrigação”, de “pressão”, de “cansaço” ou de “sobrecarga pelos outros que partilham demasiado” ou mesmo se estão “constrangidos pelo aumento da presença de adultos” no Facebook

Depois de ler a notícia, a frase que merece alguma reflexão só pode ser esta: “Sim é por isso que vamos ao Twitter e ao Instagram [em vez de ao Facebook].”
Portanto, a única coisa que vale a pena perguntar é por que razão ainda vão “socializar noutros sites” em vez de desligarem simplesmente o computador. Vão tomar um café, ao café, que isso passa. 


Um pequeno conto sobre sermos (ainda) capazes de fazer as nossas próprias escolhas:

A centésima noite
Isto passou-se na China, em tempos que já lá vão.
Um rico mandarim tomou-se de amores por uma célebre cortesã. Solicitou ardentemente os seus favores e ela disse-lhe:
- Entregar-me-ei a ti depois de passares cem noites no meu jardim, à minha espera, sentado num banco, debaixo da minha janela.
O mandarim, que conhecia o feitio difícil da rapariga, aceitou e todas as noites se sentava num banquinho sob a janela da dama. Esta dava-se a uma vida só de folguedos. De tal vida se propagavam os ecos.
O homem procedeu desse modo durante noventa e nove noites. Pela manhã, levantou-se, pegou no banquinho e foi-se embora para nunca mais voltar.

domingo, 12 de maio de 2013

A ordem normal (2)






Numa notícia do Público sobre uma aplicação que "limita o tempo de posse de uma mensagem comprometedora no telemóvel", cujo título é "Aplicação para iPhone vem facilitar as traições", pode ler-se que "apesar de esta aplicação poder vir a ser usada por todos os maridos que enganam as mulheres, esse não foi o objectivo inicial da aplicação..." Ler mais...
Como se pode comprovar também pela imagem, a linguagem reproduz sempre os valores de uma sociedade: o que é "normal"  é serem os maridos, os noivos ou os namorados a enganarem as mulheres e não o contrário. 


Enquanto aguardamos que nos chegue alguma (notícia sobre uma) aplicação informática para mulheres que enganam os maridos, aqui fica uma piada para espairecer:

"Moisés desce do monte Sinai com as Tábuas da Lei na mão e anuncia às multidões reunidas:
- Tenho uma boa e uma má notícia. A boa notícia é que consegui convencê-Lo a reduzir para dez. A má notícia é que o adultério não foi excluído."
 

A ordem normal (1)


Na foto, Francisco Leitão (DN)
 




"Como o Chico de Carqueja se transformou num assassino"

"Um rapaz que sempre foi "esquisito" e gostava de inventar aparelhos e construir coisas casou-se pela Igreja com uma rapariga da terra. Terá sido o acto mais 'normal' na vida do 'homicida de Torres Vedras'. Francisco Leitão, 42 anos, está indiciado pela morte de três jovens, Tânia, Ivo e Joana. (...) Nos últimos anos, a casa térrea de Carqueja foi transformada em castelo, e Francisco passou a ser o 'rei Ghob', rodeado de rapazes e raparigas, os seus 'gnomos'." 
Ler mais... em Diário de Notícias, 24 julho, 2010


Normalmente existe uma justiça para pobres e outra para ricos, como sabemos. E a justiça, também sabemos, começa furtivamente na imprensa, a que diariamente estamos expostos.
Um reumatologista, na sua qualidade de médico, tem direito a ser considerado pelo jornal um "alegado homicida" (aqui); Ferreira Diniz é tratado como "Ferreira Diniz"  e Carlos Cruz como "Carlos Cruz", no entanto, Carlos Silvino é "Bibi" (Casa Pia) e Francisco Leitão (na imagem), o denominado "rei Ghob" é o "Chico de Carqueja".
Ainda pior: quase dois anos antes de ser condenado em tribunal, já o reputado jornal lhe chamava "assassino" (e não "homicida", muito menos "alegado").
Uns têm, outros não.

 

O nada nadifica



Com indisfarçável atrapalhação, já no limite das suas forças, este repórter teve a involuntária dignidade de se calar, manifestando de forma eloquente a natureza daquilo que quase todos os jornalistas têm para nos dizer: nada. Embora já o soubéssemos, ficou convenientemente registada a incontinência falante de cabeças cada vez mais afadigadas e vazias que, por uma vez, se calaram.
Ao mesmo silêncio se deveria ter remetido quem produziu isto: “Ex-colega do avô de Vítor Gaspar esteve na manif da UGT”