Falar para um candeeiro...

terça-feira, 21 de abril de 2015

A César o que é de César


A destruição do Leviatã, de Gustave Doré, 1865
 (Capa de "O mistério do mal" de Giorgio Agamben)


Este texto de Giorgio Agamben (aqui) refere três ideias importantes:
1) A única forma de compreendermos as raízes da profunda crise de legitimidade pela qual passamos hoje é através de uma rigorosa arqueologia das raízes da nossa modernidade;

2) A tentativa da modernidade de fazer coincidir legalidade e legitimidade, assegurando através do direito positivo a legitimidade de um poder é totalmente insuficiente. As instituições de uma sociedade permanecem vivas somente se ambos os princípios  permanecem presentes e agem nela sem nunca pretender coincidir;

3) Logo, é inútil acreditar que se pode enfrentar a crise das nossas sociedades por meio da ação – certamente necessária – do poder judiciário: uma crise que investe contra a legitimidade não pode ser resolvida apenas no plano do direito.


Por essa razão, quando vejo nas pessoas em geral ou nos partidos em particular um certo “ativismo judicial” (como a prisão para os políticos corruptos, por exemplo), penso que o maior perigo deste ativismo não é tanto o do populismo como o da judicialização da política. Esta judicialização transforma o conflito social e político num conjunto de problemas técnicos regulados por normas e entregá-los a especialistas jurídicos.
Nesse sentido, a própria “inspeção” legal da Constituição pelo Tribunal Constitucional não é mais que parte desse trabalho desenvolvido por um  conjunto de especialistas.

Legitimidade e legalidade são coisas muito diferentes. À política o que é da política, aos técnicos o que é dos técnicos.




segunda-feira, 20 de abril de 2015

Um ponto sem extensão


Robert Capa, Watching the Tour de France in front of a bicycle shop  (Julho, 1939)


Nunca estamos completamente no presente nem fora dele. Não vivemos o presente em estado puro, mas sempre como um "ponto sem extensão", uma breve passagem entre o passado que já não é e um futuro que haverá de ser.

O tempo, ele próprio, é esse simples ponto de passagem, que permanentemente se desfaz em pequenos instantes diante dos nossos olhos, como substância volátil. E, de repente, como a simples duração de dois olhares, passaram-se anos. Uma parte da nossa história já é passado.

Um passado que não é apenas feito do que já sabemos mas daquilo que a memória resolve. O passado nunca será um quarto fechado sem portas e janelas por onde entrar. Será mais como um palimpsesto que vai sendo transformado, que se raspa para escrever de novo, camada  sobre camada, cada uma apagando ou modificando a outra. 






domingo, 19 de abril de 2015

Candeeiro do Vasco, o próprio



E aqui está ele! O candeeiro por onde um dia passou Vasco Santana.
Podemos ainda hoje encontrá-lo num pátio de Lisboa…


Narciso (Vasco Santana) regressando a casa, dirige-se a um candeeiro público enquanto assobiava a "Rosa tirana":
"Boa noite V. Exa. V. Exa. vai perdoar-me a inconveniência, mas podia fazer-me o obséquio de me dar um bocadinho do seu lume?


[O candeeiro permance silencioso :]

Compreendi-te! Não te dignas dar lume a um humilde transeunte. Não te dignas baixar-te a mim, convencido que és alguém. Estás convencido que lá por dares luz a uma simples rua, és igual ao sol, que dá luz ao mundo.
Desculpa que te diga, mas és um ilusionista, um ilusionista e um vaidoso. De resto, és igual a todos os homens, perfeitissimamente igual. Julgas que és alguém sem te lembrares que há outros que estão muito acima (onde é que eu já li isto?!)
(…) Decididamente não me queres dar lume. Boa noite!"
Pátio da Cantigas, 1942
 





Um candeeiro na Guiné




Estudantes na Guiné Conacri lendo e estudando na rua sob candeeiros de iluminação pública porque não têm luz elétrica em casa (daqui). Choca-nos a pobreza ao mesmo tempo que nos comove esta vontade de, contra tudo, estudar e aprender. 

É verdadeiramente impressionante e haveria muito a dizer sobre este verdadeiro “candeeiro”. Paradoxalmente, é nestes momentos, vendo estas imagens, que nos convencemos que não estamos assim tão mal, que afinal a miséria do mundo é infinita.

De qualquer forma, vendo estes jovens não me sinto com vontade de falar sobre os "cortes na educação". Deve ser esta a tristeza de que falava Espinosa, aquela que diminui a nossa potência de agir.